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Olá, queridas e queridos assinantes da série Spiti One!
Apresentamos a tese de investimento da nossa representante do mundo das techs, a Sinqia. Atualizamos seu modelo de valuation, acrescentamos as novas premissas macroeconômicas e revisamos o potencial da principal empresa de softwares do mercado financeiro nacional.
Vamos lá?
Sinqia (SQIA3): a menina dos olhos das techs
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No nosso dia a dia, não tem como ignorar que estamos a todo momento utilizando os softwares. Nos smartphones, computadores, televisores e até em relógios, esses dispositivos estão presentes nos auxiliando em nossas tarefas, das mais simples às mais complexas.
E hoje vamos falar de uma companhia que pode ser bem pequena ainda em termos de valor de mercado na nossa Bolsa, mas que já se mostra gigante quando se analisa a dominância de mercado: a Sinqia.
A empresa hoje é a líder no desenvolvimento de softwares para o mercado financeiro. Ela atende desde bancos, fundos de investimentos e consórcios, até a área de previdência.
Além de ser líder do segmento, a companhia também é consolidadora, dado que já realizou 23 aquisições no setor desde 2005, o que vem proporcionando 17 anos consecutivos de crescimento.
Antes de ir para a revisão da tese, vamos lembrar o que é a Sinqia?
História
Entre as décadas de 1950 e 1970, a indústria da computação mundial se desenvolveu baseada intensivamente no uso de mainframes, computadores de grande porte que os usuários operavam por meio de terminais conectados a uma única central de processamento. Na década de 1980, essa indústria se transformou com o uso dos desktops, microcomputadores de pequeno porte que as pessoas podiam realizar suas atividades por meio de um terminal com capacidade própria de processamento.
Diante dessa transformação, as corporações tiveram a necessidade de adaptar os softwares utilizados por elas ao uso de microcomputadores. No Brasil, o setor financeiro foi um dos primeiros a realizar essa adaptação.
A Sinqia foi fundada em 1996 por Bernardo Francisco Pereira Gomes e Antonio Luciano de Camargo Filho. A empresa desenvolvia softwares personalizados e entregava os códigos-fontes para seus clientes, que com o tempo passaram a demandar também a sustentação de softwares, através da alocação de equipes responsáveis por suporte e manutenção, conhecido como outsourcing.
Em 2002, com o objetivo de construir um negócio com recorrência e escalabilidade, a empresa lançou seu primeiro software aplicativo de prateleira, voltado para a área de tesouraria de bancos, que foi licenciado no modelo de aluguel mensal (subscrição).
Observando a realidade desafiadora das instituições financeiras no país em relação à administração da área de TI, com diversos fornecedores, tecnologias e softwares, além de custos elevados de investimentos na integração dos diversos softwares utilizados, a companhia se propôs a construir uma ampla gama de softwares para o setor financeiro, com uma solução completa para atender às instituições financeiras por inteiro (abordagem one-stop-shop), dispondo de programas para diversas áreas de atuação. Considerando o alto custo de substituição de sistemas já utilizados pelas instituições, a Sinqia escolheu executar essa estratégia por meio da aquisição de outras empresas.
Nos anos seguintes, após receber aportes do fundo de private equity Stratus e do BNDESPar, a companhia adquiriu Netage (2005), Pulso (2006), Impactools (2007), Intellectual Capital (2007) e Controlbanc (2010). Para dar continuidade a essa estratégia, realizou sua oferta pública inicial de ações (IPO) em 2013 e adquiriu mais quatro empresas: Drive (2013), Aquarius Tecnologia (2015), Pleno (2015) e Attps (2016).
De 2018 a 2021, a Sinqia deu continuidade à sua agenda de fusões e aquisições (M&As, na sigla em inglês) e fez as seguintes aquisições: ConsultBrasil, Atena, ADSPrev, Softpar, Stock & Info, Itaú Soluções Previdenciárias (ISP), Tree Solution, Fromtis, Simply, FepWeb, Mercer e Lote 45.
Governança corporativa
O grupo controlador da Sinqia é formado pelos sócios-fundadores Bernardo Francisco Pereira Gomes (6,47%) e Antonio Luciano de Camargo Filho (7,37%), e pelas gestoras de recursos HIX Investimentos (10,43%) e SFA Investimentos (6,53%). As demais ações encontram-se em free float (livre circulação).
A companhia integra o segmento do Novo Mercado da B3, nível mais alto de governança da Bolsa de Valores brasileira, no qual uma empresa só possui ações ordinárias (ON), ou seja, ações que dão direito a voto nas assembleias de acionistas.
Como funciona o negócio da Sinqia?
Os softwares desenvolvidos pela companhia consistem em programas de computadores destinados a desempenhar as tarefas operacionais do dia a dia de uma instituição financeira e são direcionados às necessidades de processamento de operações financeiras diversas. Além de desenvolver, a Sinqia instala, implanta, integra e customiza esses programas, agregando valor ao serviço prestado. Seu portfólio também conta com serviços de terceirização de gestão de sistemas e processos e consultoria para constituir, reorganizar, planejar e revisar processos das instituições financeiras.
A Sinqia divide sua trajetória de crescimento em três ciclos de investimentos. Nos dois primeiros ciclos, de 2004 a 2018, ela focou na consolidação do seu portfólio de produtos e posicionamento estratégico, com objetivo de se consolidar como líder em software no mercado financeiro. Nesse sentido, investiu em soluções completas para as suas quatro verticais de atuação: bancos, fundos, previdência e consórcios.
No terceiro ciclo, iniciado a partir da captação de R$ 363 milhões em um follow-on (oferta pública subsequente de ações) no ano de 2019, a companhia focou na aquisição de empresas digitais, que oferecessem serviços complementares às suas quatro verticais.
Neste último ciclo, que ainda está em andamento, a Sinqia adquiriu as seguintes empresas:
- ISP, fornecedora de softwares e serviços para o segmento de previdência fechada, que ampliou tanto o portfólio de produtos quanto a carteira de clientes da companhia, trazendo 33 novos clientes, inclusive do conglomerado Itaú;
- Tree Solution, fornecedora de software para o sistema financeiro nacional com foco no segmento de câmbio, que permitiu à Sinqia ampliar seu portfólio de produtos na vertente de bancos e ampliar sua base de clientes, adicionando bancos globais com atuação no país, o que criou novas oportunidades de cross-sell (venda cruzada, ou seja, de produtos e serviços complementares) na base de clientes combinada;
- Fromtis, especializada em software para o segmento de FIDCs (fundos de investimentos em direitos creditórios), que atende a diferentes participantes de mercado como administradores, custodiantes e gestores, ampliando a atuação da companhia na vertente de fundos;
- Simply, especialista em soluções para automação de processos, principalmente na abertura de contas digitais e aquisição de produtos financeiros, que conta também com clientes de bancos digitais e fintechs;
- FepWeb, empresa que oferece soluções de transações digitais com altos níveis de segurança;
- Mercer, multinacional que possui uma divisão de administração previdenciária, em que estão inclusos softwares e serviços voltados para entidades fechadas de previdência complementar;
- NewCon, uma das principais fornecedoras de tecnologia para o sistema financeiro no Brasil, especialista em softwares utilizados pelos diversos tipos de administradores de consórcios, e que configurou a maior transação já realizada pela Sinqia, cujo fechamento ocorreu em janeiro de 2022;
- QuiteJá, empresa especialista em recuperação de crédito de terceiros e negociação de dívidas de forma totalmente digital, complementando a horizontal chamada Sinqia Digital;
- Lote 45, especialista em softwares para gestão de risco utilizados por mais de 100 clientes na indústria de fundos de investimento, principalmente family offices e gestores de recursos.
Fonte: Sinqia
A companhia hoje está dividida basicamente em seis grandes áreas de negócios: bancos, fundos, previdência, consórcios, digital e, mais recentemente, serviços.
Fonte: Sinqia
Perspectivas para a empresa
O mercado brasileiro de software e serviços atingiu em 2021 US$ 19,2 bilhões, segundo o estudo Mercado Brasileiro de Software – Panorama e Tendências 2022, feito pela Associação Brasileira de Empresas de Software (Abes).
Ainda de acordo com o levantamento, o Brasil ocupa o 12º lugar no ranking mundial de investimentos em softwares e serviços (com participação de 1,3%), e o consumo brasileiro de software chegou a US$ 11,2 bilhões em 2021. A vertical financeira, na qual a companhia está focada, detém a maior participação nesse consumo, com 26,1% de market share e respondendo por US$ 5,0 bilhões em 2021.
Fonte: Abes
A própria Sinqia entende que a vertical financeira possui vários fatores estruturais que vão fomentar um crescimento sustentável nos próximos anos, tais como: a necessidade constante de inovação, com desenvolvimento de novos produtos e serviços financeiros, além de novos canais de venda; a necessidade de processar um grande volume de operações financeiras de forma rápida e com alto grau de confiabilidade; a busca constante de eficiência operacional no mercado financeiro por meio do uso de tecnologias modernas; a tendência de terceirização no desenvolvimento de softwares pelos clientes do mercado financeiro em detrimento ao desenvolvimento interno; e as novas regulamentações, que incentivam o uso de tecnologia na gestão de instituições financeiras.
Nesse contexto, seu posicionamento de mercado, como uma das maiores fornecedoras de tecnologia financeira do mundo de acordo com o IDC Fintech Rankings de 2020, e seu modelo de negócios, com um portfólio abrangente de softwares e serviços baseado em receitas recorrentes, tornam a empresa capaz de capturar essas oportunidades, direcionando os esforços comerciais nos segmentos da vertical financeira com maior potencial de crescimento e aproveitando oportunidades de consolidação no setor.
Para exemplificar essa capacidade, a Sinqia tem sistematicamente aumentado o seu número de clientes, passando de 129 clientes em 2012 para mais de 700 no segundo semestre de 2022. Dentre eles, alguns dos principais bancos, gestores de recursos, entidades de previdência complementar, seguradoras e administradoras de consórcios com atuação no país, compondo com uma sólida base de instituições financeiras, com as quais mantem relacionamentos de longo prazo.
Fonte: Sinqia
A estratégia da companhia de atuar como um ecossistema de produtos e serviços focado em soluções de tecnologia para o mercado financeiro proporciona vantagens competitivas que atualmente permitem o sucesso nos mercados em que atua, que é o de tecnologia para o setor financeiro.
O setor de tecnologia para a indústria financeira é altamente fragmentado e apresenta grande barreira de entrada, principalmente a participantes estrangeiros, devido à regulamentação, estrutura de arrecadação de impostos no país e idioma.
A empresa hoje é líder no mercado de fornecedores de tecnologia para o setor financeiro, com participação de aproximadamente 12%, de acordo com relatório Abes 2021 (dados de 2020).
Fonte: Sinqia
Como o foco é o setor financeiro, a Sinqia consegue atender às necessidades específicas de seus clientes.
Fonte: Sinqia
Nesse mercado de atuação, o faturamento tende a ser recorrente e previsível, dado o alto custo de troca de software e, consequentemente, de fornecedor. Nesse sentido, nos últimos três anos, o percentual de recorrência médio da Sinqia foi de 86,8% da receita operacional líquida total.
Confirmando a estabilidade desse mercado, a companhia apresenta um histórico de crescimento consistente, quando comparados os anos de 2020 e 2021, com aumento de 68% da receita líquida e de 5,7 p.p. da margem Ebitda ajustada.
O mercado em que a empresa se encontra é altamente fragmentado, o que gera interessantes oportunidades de consolidação e geração de valor para cadeia. Nesse sentido, ao longo dos últimos 17 anos, a empresa apresentou forte capacidade de geração de valor com as aquisições realizadas.
Valuation
Revisitamos nosso modelo de valuation, incorporando os últimos resultados divulgados pela companhia e as perspectivas para o setor de software e serviços.
Ao analisarmos o desempenho da Sinqia nos últimos anos, percebemos que a sua estratégia baseada na aquisição de empresas menores, com forte crescimento e margens saudáveis de rentabilidade, se mostrou acertada. A companhia passou de uma receita líquida de R$ 135 milhões em 2017 para uma receita projetada para 2022 de R$ 581 milhões, mais do que quadruplicando de tamanho.
Ao contrário do que ocorre em muitos casos, em que as empresas acabam tendo suas margens de rentabilidade pressionadas devido aos dispêndios com os processos de integração das adquiridas, a Sinqia tem conseguido unir crescimento e rentabilidade, com a sua margem Ebitda se expandindo de 13,5% em 2017 para 25,7% em 2022. Outro ponto interessante é que a empresa também tem realizado uma gestão de passivos eficiente, tendo encerrado o último trimestre com uma relação dívida líquida/Ebitda de 1,1x.
Além do crescimento inorgânico, a companhia também tem empenhado esforços em crescer organicamente. No segundo trimestre do ano, a receita líquida orgânica alcançou R$ 90,7 milhões, 20% superior ao mesmo período do ano anterior. Isso se deve ao reajuste dos seus contratos por inflação, ao aumento do volume de vendas, tanto por vendas cruzadas quanto pelo crescimento orgânico da carteira de clientes, e ao baixo churn (número de clientes que cancelam os seus contratos), o que confere a ela maior previsibilidade de receitas.
Outro importante ponto na nossa tese de investimentos é que a estratégia de M&As e consolidação de mercado, além de aumentar o seu portfólio de produtos em um setor com fortes barreiras de entrada e com churn de clientes baixo, também reduz o risco de concentração de receitas em apenas um cliente. No 2T22, o maior cliente da companhia contribuiu com 2,2% da receita líquida, uma redução de 1,2 p.p. em relação aos 3,3% do 2T21.
Em nosso modelo de valuation, estimamos que a companhia seguirá apresentando forte crescimento nos próximos anos, porém em menor ritmo do que vimos nos últimos trimestres, por não considerarmos possíveis M&As que possam vir a acontecer. Assim, projetamos receita líquida de R$ 581 milhões para 2022, de R$ 756 milhões para 2023 e de R$ 945 milhões para 2024. Para o Ebitda, estimamos, R$ 148 milhões, R$217 milhões e R$ 282 milhões em 2022, 2023 e 2024, respectivamente.
Reiteramos nossa recomendação de compra para SQIA3, com preço-alvo de R$ 35,00.
Abraços,
Aline Tavares e Ana Luiza Erthal