Eu sempre tive muitas manias.
E tenho certeza que você vai perceber algumas delas ao longo dos anos que vamos ficar juntos.
Uma delas é mexer na orelha quando estou com sono. A senhora Helena Cadonhotto, vulgo minha mãe, me disse que essa mania tem origens nos tempos áureos de berço. Ou seja, é mais forte do que eu.
Assim, quando menos se espera, eu me pego mexendo na orelha, para quem não me conhece direito parece que eu não estou muito bem então resolvi logo te avisar.
Outra mania que tenho é que nunca, repito, nunca misturar o arroz com o feijão no meu prato.
Antes de montar o meu prato completo, geralmente com arroz, salada e uma proteína (ou a “mistura”, como gostamos de chamar aqui em São Paulo), eu como uma verdadeira pratada de feijão. Isso mesmo, feijão puro, sem qualquer acompanhamento.
Ou seja, não faço parte de nenhum dos grupos de brasileiros que discutem se preferem o arroz por cima ou por baixo do feijão: gosto deles separados.
A verdade é que não importa se você prefere o feijão por cima, por baixo ou, como eu faço, antes do arroz. A combinação, que está presente em praticamente todos os lares brasileiros, faz um bem danado. Afinal, combinados, eles garantem boa parte dos nutrientes necessários para o dia a dia. Saiba mais aqui.
Da mesma forma que arroz com feijão pode suprir boa parte das necessidades de nutrientes no dia a dia, vou mostrar três tipos de títulos públicos que vão fazer um papel semelhante ao prato, ou seja, ser uma base sólida e que ofereça rendimentos para sua carteira.
Quando o governo pede um empréstimo a você
Os títulos públicos são títulos de dívida emitidos pelos Tesouro Nacional, uma instituição do Governo Federal que atua basicamente como um caixa. Ou seja, se o governo precisa de recursos para investir, ele vai até o Tesouro e solicita esse dinheiro.
Ao longo dos últimos anos, o Brasil tem gastado mais do que tem conseguido arrecadar via impostos. Assim, existe o risco de o governo pedir dinheiro ao seu “caixa”, mas este não ter recursos suficientes. O que o Tesouro faz então?
Emite os títulos públicos, ou títulos de dívida, para os investidores, pessoas que têm dinheiro disponível e querem ser remuneradas por empréstimos que fazem ao governo.
Cada um desses ativos possui uma data de vencimento e uma taxa de remuneração. Dessa forma, ao escolher determinado título público, a pessoa que investe pode optar entre várias opções de remuneração e vencimento.
Esses títulos públicos são disponibilizados para nós, investidores pessoa física, no portal do Tesouro Direto, uma plataforma criada em uma parceria entre Tesouro Nacional e B3, a Bolsa brasileira, para facilitar o acesso aos investimentos.
Basicamente, o investidor pode escolher entre títulos pós-fixados, prefixados ou indexados à inflação.
Vou falar sobre cada um deles e mostrar como eles se encaixam em nossa carteira:
Títulos pós-fixados (Tesouro Selic)
Como o próprio nome dá a entender, nos títulos pós-fixados, você só vai saber a remuneração recebida na data de vencimento do ativo.
Isso acontece porque a remuneração desse ativo (taxa pela qual ele é corrigido) é flutuante, ou seja, oscila ao longo do tempo.
O título público pós-fixado é o famoso Tesouro Selic.
Quando você compra um Tesouro Selic, o seu título é corrigido diariamente pela taxa Selic vigente, a taxa básica de juros do Brasil, que é determinada pelo Banco Central e está atualmente em 2% ao ano.
Esse é o ativo mais seguro disponível no mercado financeiro brasileiro e funciona muito bem como um seguro para momentos de incerteza no mercado, pois ele alia duas características fundamentais:
- O risco de mercado, que é a oscilação do preço do ativo. Sendo assim, a oscilação do preço desse ativo tende a ser baixa em momentos normais de mercado – normalmente, o preço dele vai subir dia a dia de acordo com a Selic atual;
- O risco de crédito, ou o risco que você corre de não receber o seu dinheiro de volta no vencimento do seu ativo. No caso, é a possibilidade de governo, banco ou empresa não ter dinheiro para te pagar de volta no vencimento do ativo.
É importante pontuar que, em momentos muito pontuais, o Tesouro Selic pode até apresentar oscilações negativas, como a que tivemos em setembro deste ano, consequência da crise econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus. Mas, para você ter uma noção de como isso é atípico, a última vez que isso aconteceu foi em 2002.
Hoje, devido ao cenário incerto do mercado brasileiro, com possíveis impactos ainda gerados pela crise, recomendo manter até 30% da carteira em Tesouro Selic neste momento.
Esse percentual se mostra necessário dado os riscos que a economia brasileira enfrenta atualmente
Detalhe, o Tesouro Selic não paga juros à pessoa investidora. Mesmo assim, esse percentual se mostra necessário já que, como disse antes, o risco de desvalorização nos ativos de risco no Brasil, como ações, fundos imobiliários e títulos de renda fixa com alto risco de mercado são consideráveis, e esse ativo funciona como um porto seguro.
Com uma melhora do cenário, onde os ativos com mais risco de mercado, ou seja que apresentam oscilações de preços relevantes, mostrem maiores potenciais de ganho, vamos alterando o percentual de Tesouro SELIC para FIIS, Ações, prefixados e indexados a inflação.
Portanto, minha recomendação é que você invista 30% do seu patrimônio destinado à sua carteira de renda em Tesouro Selic 2025. Para isso, basta acessar a plataforma do Tesouro Direto por meio de sua corretora de investimentos.
Títulos prefixados (Tesouro Prefixado)
O Tesouro Prefixado é um título público com risco de mercado relevante, ou seja, o preço do papel pode oscilar de forma considerável de acordo com seu prazo de vencimento.
Quanto maior o prazo, maior a oscilação em seu preço, e quando digo oscilação, ressalto que ela pode ser positiva ou negativa.
E, ao contrário do que o nome sugere, o preço desse ativo pode variar, e muito.
Ele se chama prefixado por que seu valor no vencimento, sempre é de R$1.000,00, porém até o vencimento o preço pode sofrer algumas alterações, e bem consideráveis.
Quer um exemplo?
Todo Tesouro Prefixado vale R$ 1 mil em seu vencimento, e o preço que você paga nesse ativo pode estar bem abaixo disso, dependendo de quanto tempo falta para ele vencer.
Se você levar esse ativo até o vencimento você receberá os R$ 1 mil por cada Tesouro Prefixado na carteira. Mas caso precise vendê-lo antes, você pode amargar grandes prejuízos, assim como também grandes ganhos.
Dê uma olhada no gráfico abaixo que representa o preço um deles, o Tesouro Prefixado 2026:
Fonte: Tesouro Direto
A linha azul representa o preço do Tesouro Prefixado 2026 ao longo de 2020.
Entre fevereiro e março, o preço do ativo caiu mais de 15%.
Porém, quem comprou o mesmo ativo no fim de março, teve um retorno superior a 20% nos três meses seguintes.
Portanto, temos que entender que títulos prefixados apresentam riscos relevantes, e saber a hora de comprá-los e de vendê-los é essencial.
A questão é que o foco aqui é construir uma carteira de renda. Por isso, vamos comprar ativos que paguem juros e, no caso dos títulos prefixados, a opção que temos disponível hoje no site do Tesouro Direto é o Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2031.
Esse ativo nos paga juros anuais de 10%, o que dá uma taxa de aproximadamente 4,90% por semestre.
Dessa forma, prepara-se para receber um dinheirinho na sua conta em janeiro e julho, meses em que esse ativo paga juros.
Mas como o preço do Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2031 vem se comportando nos últimos 90 dias?
Veja o que aconteceu com o preço desse título público nos últimos dias:
Fonte: Tesouro Direto
Aqui, a linha azul representa o preço desse título.
Por conta do aumento do nível de endividamento no Brasil, os investidores estão receosos em manter na carteira ativos prefixados de longo prazo. Assim, esse ativo apresentou uma queda de quase 10% nos últimos meses.
Como os investidores ainda estão receosos em relação a esse ativo no curto prazo, e com o risco de que seu preço possa aumentar (o que desencadearia uma desvalorização ainda maior), compraremos somente 10% da nossa carteira em Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2031.
Se acontecer uma desvalorização de maneira mais intensa, provavelmente aumentaremos a alocação nesse ativo.
Títulos indexados à inflação (Tesouro IPCA+)
Posso afirmar que esta categoria de ativos é a favorita dos investidores.
Esse título público tem sua taxa remunerada pela variação do IPCA mais uma taxa acordada no momento da compra do ativo.
O IPCA, sigla de Índice de Preços ao Consumidor Amplo, é o índice oficial para se calcular a inflação no Brasil. Ele é divulgado mensalmente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e leva em consideração a variação de mais de 300 itens presentes na cesta de consumo da família brasileira média.
Em momentos de incertezas econômicas e principalmente em relação à sustentabilidade fiscal do Brasil, ou seja, com o nosso nível de endividamento, os ativos indexados à inflação, principalmente os de longo prazo, tendem a apresentar desvalorizações significantes.
As perdas de valor são menores em títulos indexados à inflação do que em prefixados. Por isso, vamos dar prioridade aos primeiros. Da mesma forma, como os riscos de uma piora no quadro fiscal no país são de certo modo relevantes, daremos prioridade aos títulos de prazo mais curto, alocando apenas uma pequena parcela nos de longo prazo.
Sendo assim, a alocação neste segmento dos títulos públicos será distribuída da seguinte maneira:
- Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2030: 15%
- Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2040: 2,5%
- Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2055: 2,5%
Conclusão
Os títulos públicos são uma excelente fonte de ativos geradores de renda. Porém, diante da incerteza em relação ao cenário brasileiro, manteremos a alocação nos títulos com risco de mercado abaixo do nosso patamar neutro, a fim de dar mais proteção para a nossa carteira neste momento.
Caso o cenário melhore ou os preços se mostrem mais atrativos, vamos aumentar a alocação nesses ativos.
Vale lembrar que todos os títulos públicos mencionados neste relatório podem ser adquiridos através do portal do Tesouro Direto ou na plataforma da sua corretora de investimentos.
Na imagem abaixo, veja mais informações sobre os ativos apresentados aqui. Repare que os valores mínimos de aplicação para cada ativo são bastante acessíveis.
Fonte: Tesouro Direto
Portanto, por mais que você não abra mão dos acompanhamentos do seu “prato”, como FIIs e ações, recomendo que você não deixe de lado o arroz com feijão, ou, no caso, os títulos públicos.
Abraços,