Relatórios

Tudo pronto para o rali de fim de ano?

Escrito por Guilherme Cadonhotto, Felipe Arrais em RENDA TOTAL

8 min de leitura

O maior rali do mundo, se você não sabia, ocorre aqui no Brasil e é o famoso Rally dos Sertões, que eu tenho convicção de que você já ouviu falar, mas que provavelmente não entende muito bem como funciona.

Pois bem, hoje entenderá brevemente.

O circuito completo do Rally dos Sertões passa por nada menos do que OITO estados do Brasil, e compreende a distância total de 7.202 quilômetros. Se você não tem noção do quão longo é esse percurso saiba que a distância, em linha reta, seria suficiente para sair de São Paulo e chegar a Portugal.

Além disso a competição conta com centenas de participantes de diferentes países, inclusive pilotando diferentes veículos como carros, motos, quadriciclos e UTVs.

Para dar suporte a esse evento são necessários mais de 1.500 profissionais, 120 voluntários, dois aviões de monitoramento e três helicópteros equipados com UTIs.

Fonte: Globo Esporte

Enfim, deu para entender a grandiosidade do evento e do número de pessoas envolvidas, mas o rali ao qual me refiro no título do relatório é um pouco diferente e, digamos, “mais limpo” do que a nossa prova do segmento automobilístico.

O "rali de fim de ano" no mercado financeiro é um fenômeno observado em muitos anos, onde os preços de ações e outros ativos financeiros, principalmente aqueles de maior risco, tendem a subir durante o período que compreende os últimos meses do ano, geralmente de novembro a dezembro.

Esse aumento nos preços pode ser especialmente evidente nas últimas semanas de dezembro.

Para trazer um pouco mais de dados para essa visão, vamos buscar alguns números importantes, começando com o índice mais novo do mercado de renda variável no Brasil, o Ifix, o índice de fundos imobiliários.

O Ifix, desde seu início em 2011, já passou por 12 dezembros completos, e desses, em 10 oportunidades o índice apresentou resultado positivo, tendo resultado negativo em apenas 2 observações.

Desses 12 meses de dezembro, em 8 o principal índice de fundos imobiliários do Brasil apresentou resultado superior ao CDI, o que nos dá um percentual de “vitória” nos meses de dezembro de 66,67% para o Ifix frente ao principal índice do mercado financeiro brasileiro.

Além disso, o retorno médio dos meses de dezembro ficou em 2,22%, contra 0,74% do CDI. Isso significa que, na média, desde o seu nascimento, o Ifix rendeu quase 3 vezes o retorno médio do CDI.

Mas vale darmos uma olhada também em outros indicadores, digamos, mais experientes do mercado brasileiro, como o Ibovespa e o IMA-B, ou seja, o principal índice do mercado de ações no país e o índice dos títulos públicos indexados à inflação.

Com esses dois índices, conseguimos voltar 20 anos, ou seja, ter uma série de dados com 20 dezembros em nossa amostra. Vamos começar dando uma olhada na performance do Ibovespa ao longo desses 20 anos, ou melhor, 20 meses de dezembro.

Nessas 20 observações, o Ibovespa apresentou rentabilidade positiva, assim como superou o CDI, em 13 observações, tendo ficado com rentabilidade negativa e, consequentemente, variação inferior ao CDI em 7 casos.

Isso nos dá uma taxa de “vitória” para o Ibovespa de 65%.

O retorno médio nos meses de dezembro compreendidos na amostra foi de 2,18%, enquanto a mediana foi de 2,48%. O retorno médio do CDI no período foi de 0,91%.

Abaixo você consegue observar o quadro resumo dessa comparação:

Fonte: Quantum - Elaboração: Spiti

Agora vamos dar uma olhada no indicador de risco da renda fixa, o IMA-B, o índice dos títulos públicos indexados à inflação.

Dos indicadores apresentados, o IMA-B foi o índice com o maior nível de “vitória” frente ao CDI desde seu início. Das 20 observações do mês de dezembro, o IMA-B apresentou retorno positivo em 18 delas. Dessas 18 superou o CDI em 15 oportunidades. Ou seja, em 90% dos meses de dezembro desde seu início o IMA-B apresentou retorno positivo e em 75% das vezes seu retorno superou o do CDI.

A média de retorno, porém, fica levemente abaixo do principal indicador de ações. O retorno médio do IMA-B nesses meses foi de 1,83%, enquanto a mediana de retorno foi de 1,71%.

Abaixo você consegue observar o quadro resumo dessa comparação:

Fonte: Quantum - Elaboração: Spiti

No Brasil parece que os indicadores de risco têm uma propensão a apresentar um resultado marginalmente positivo em dezembro, e o mais importante é que essa taxa de “vitória” dos indicadores de risco é superior à de outros meses.

Mas a pergunta que resta é: isso também é verdade para as ações nos EUA?

Para responder analisar o principal indicador de ações nos EUA, o S&P500.

Porém vamos analisá-los de duas maneiras, uma com sua variação em dólar e a outra com sua variação em real.

Ou seja, o quão eficiente ele vem se mostrando nos meses de dezembro na sua moeda local, o dólar americano, e o quão eficiente ele vem se mostrando para nós brasileiros no mesmo período, isso é, somamos à variação do S&P a variação do dólar com relação ao real.

Vamos aos dados do S&P em dólar.

Pegamos dados desde 1997, ou seja, teremos 26 meses de dezembro para analisar.

O S&P500 em dólar apresentou resultado positivo em 19 das 26 observações, apresentando uma taxa de “vitória” de 73%. Vale lembrar que a do Ibovespa foi de 65%.

O retorno médio do S&P nos 26 meses de dezembro foi de 1,009%, enquanto o retorno da mediana apresentou resultado positivo de 1,12%.

Veja o quadro resumo:

Fonte: Quantum - Elaboração: Spiti

Vale lembrar que apesar de ser uma variação inferior à média e mediana do Ibovespa, a “Selic americana” no período foi muito inferior ao CDI no mesmo período. Para você ter uma boa base de comparação, o CDI médio anual dos últimos 20 anos está em aproximadamente 10% ao ano, enquanto a “Selic americana” está em aproximadamente 2% ao ano.

Ter uma rentabilidade média de 1% em dólar nos EUA é algo muito mais significativo frente ao índice livre de risco do que a rentabilidade média apresentada pelo Ibovespa nos meses de dezembro frente à variação do CDI.

Agora quais serão as estatísticas do S&P em real?

Antes, deixa eu te explicar algo interessante.

Entre dezembro de 1996 e 13/11/2023, o S&P em real acumulou uma variação positiva de 2.660%, enquanto no S&P em dólar, ou seja, o que os americanos observaram de fato na variação do seu principal índice de ações, foram “módicos” 482%.

A diferença se dá pela desvalorização cambial.

O brasileiro que investiu em S&P em 1996 observou uma valorização brutal do seu patrimônio lá fora muito por conta da desvalorização de nossa moeda, ou seja, da alta do dólar ao longo de todo esse período.

Dito isso, o S&P em real deve apresentar uma “taxa de vitória” em dezembro ainda maior do que a do S&P em dólar, correto?

Na verdade, a realidade é bem diferente.

Das 26 observações, o S&P em real apresentou resultado positivo em 15 oportunidades, acumulando variação negativa em 11 vezes.

Mas o que explica isso?

Tanto nos EUA quanto no Brasil verificamos que dezembro tende a ser um bom mês para ativos de risco, ou seja, ativos de maior volatilidade.

É importante lembrar que o mercado brasileiro é considerado um mercado de risco, e em meses de maior propensão para investidores colocarem seu dinheiro nesses ativos e países o fluxo de recursos para nosso mercado aumenta.

Qual a consequência disso?

Uma maior demanda por real frente ao dólar e uma consequente valorização da nossa moeda, ou seja, uma queda do dólar.

Por isso que os meses de dezembro são menos benéficos para o S&P em real do que para o S&P em dólar. O movimento de menor aversão ao risco impulsiona o S&P, mas também beneficia nossa moeda frente ao dólar.

O retorno médio do S&P em real nos meses de dezembro é de -0,03%. Isso mesmo, uma média negativa. A mediana, que atenua as observações muito extremas, apresentou um resultado positivo de 0,65%, positivo, mas ainda assim bem inferior à variação mediana do S&P em dólar e bem inferior à mediana de retorno do CDI nos mesmos meses.

Segue o quadro resumo para o S&P em real:

Fonte: Quantum - Elaboração: Spiti

Dito isso, podemos imaginar que de fato os meses de dezembro tendem a ser, na média, bem positivos com relação aos indicadores sem risco da renda fixa.

Mas quais podem ser os fatores por trás disso?

Vamos listar aqui alguns fatores que podem impulsionar a performance dos ativos de risco em dezembro:

Expectativas otimistas: à medida que o ano se aproxima do fim, os investidores podem ficar mais otimistas em relação ao futuro, antecipando um novo ano de crescimento econômico e lucros corporativos. Esse otimismo pode levar a compras de ações e outros ativos, impulsionando os preços. Vale ressaltar, por exemplo, que no Brasil o boletim Focus subestima a inflação do ano seguinte de maneira recorrente, ou seja, uma projeção mais otimista do que o Brasil de fato entrega.

Fim de ano fiscal: empresas e investidores individuais frequentemente fazem ajustes em suas carteiras no final do ano para fins fiscais. Isso pode incluir a venda de ativos com perdas para compensar ganhos tributáveis, o que pode afetar os preços dos ativos. Da mesma forma, algumas empresas podem anunciar recompras de ações no final do ano para melhorar suas demonstrações financeiras.

Liquidez sazonal: durante as férias de fim de ano, muitos investidores e traders tendem a tirar férias e reduzir sua atividade no mercado. Isso pode levar a volumes de negociação mais baixos e, às vezes, a movimentos de preços exagerados, à medida que a liquidez diminui. Esses movimentos podem, de maneira mais fácil, gerar um movimento mais positivo do mercado com um menor volume de negociação.

Janelas de fechamento de fundos: muitos fundos de investimento e instituições financeiras têm prazos para fechar seus livros contábeis anuais no final de dezembro. Isso significa que eles precisam realizar ajustes em suas carteiras para mostrar bons resultados aos acionistas e investidores. Como resultado, eles podem comprar ações e ativos de risco durante o último trimestre do ano, impulsionando os preços.

É importante observar que o rali de fim de ano não é garantido e pode variar significativamente de ano para ano, dependendo das condições econômicas, políticas e do mercado.

Mas, afinal, eu acredito que iremos ter um mês positivo para ativos de risco em dezembro?

Sim, e basicamente 4 fatores me fazem acreditar nisso:

Interrupção do ciclo de alta de juros nos EUA: na última reunião do Fed, o Banco Central americano, ficou claro que a autoridade monetária nos EUA não quer mais elevar a taxa de juros na maior economia do mundo. Segundo a instituição, o impacto do aperto monetário dos últimos meses deve ser observado antes de mais nada.

Inflação americana abaixo das expectativas: na última terça-feira (13), o dado de inflação de outubro nos EUA veio abaixo das expectativas, animando investidores, que começaram a apostar em quedas de juros mais rápidas nos EUA, começando já no terceiro trimestre de 2024. Esse movimento ajuda a impulsionar os juros futuros aqui no Brasil, que consequentemente beneficiam as ações, fundos imobiliários e ativos prefixados e indexados à inflação.

Cenário mais benigno para o Banco Central brasileiro: um dos receios do nosso BC para acelerar o ritmo de corte da taxa Selic ou indicar uma Selic terminal em um patamar estimulativo para a atividade econômica é o fato de o juro americano ainda estar historicamente pressionado e sem indicações mais contundentes de que o Fed tenha interrompido o aumento de juros por lá. Os movimentos tanto do Fed quanto da inflação americana devem dar mais tranquilidade para o Banco Central indicar cenários mais positivos para a Selic à frente.

Recesso parlamentar: em dezembro se inicia o recesso parlamentar, momento em que deputados e senadores literalmente saem de férias. Nesse período qualquer comunicação sobre qualquer tema importante ao país é interrompida. Isso significa que, na ausência de notícias e declarações políticas, ou seja, burburinhos, os ativos tendem a caminhar para o lado em que os fatores econômicos apontam, que como vimos nos 3 pontos anteriores, tendem a trazer um impacto positivo para os ativos.

Isso significa que tenho que aumentar minha exposição a ativos de risco?

Na verdade, não recomendamos que você faça qualquer alteração na sua carteira de investimentos, seja na sua alocação ou na seleção de ativos, simplesmente por conta da aproximação do mês de dezembro.

O relatório atual tem como objetivo te informar o motivo pelos quais acredito que entraremos em um ciclo de mercado mais positivo e, na minha visão, um que vai durar bem mais do que somente o mês de dezembro.

Abraços,

Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e investimentos globais da Spiti. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.