Relatórios

Um guia para você conhecer as classes de ativos da nossa carteira

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

7 min de leitura

No próximo dia 29 de outubro, a internet vai completar 52 anos de existência. Pouca gente sabe, mas a rede mundial de computadores foi criada inicialmente para uso militar, e hoje garante acesso à informação e conexão instantânea entre bilhões de pessoas. Aliás, um fato curioso: em 2016, a população humana era de 7 bilhões, mas já havia 23 bilhões de aparelhos conectados à internet!

Hoje em dia, qualquer pesquisa no principal buscador da internet já nos remete a milhões de páginas sobre o conteúdo que procuramos. Porém, às vezes é difícil filtrar e escolher os sites com informações de qualidade e que trazem aquilo que realmente buscamos. Além disso, existem ainda alguns conhecimentos que são difíceis de se obter na internet, principalmente quando falamos de investimentos.

Com isso em mente e atendendo a pedidos de vocês, neste relatório vamos trazer em detalhes o que são e como funcionam os principais veículos de investimentos que utilizamos na carteira da série Renda Total: ações, fundos de investimento de crédito e imobiliário, e títulos públicos com pagamento de juros semestrais.

O texto serve também como um guia para que você possa consultar sempre que tiver dúvidas sobre cada um deles.

Vamos começar?

Ações

Podemos considerar as ações como pedaços de uma empresa. Ou seja, quando você compra esses ativos, significa que comprou uma parte dela e se tornou sócia ou sócio da companhia, acreditando que ao longo dos anos você vai receber uma participação nos seus lucros, os famosos dividendos, e acompanhar a sua valorização.

E como o preço das ações e, por consequência, das empresas oscilam diariamente? Existem diversos fatores que causam impactos no valor de uma companhia, mas aqui quero destacar dois muito importantes: (i) oferta e demanda e (ii) cenário macroeconômico.

A oferta e a demanda vão impactar diariamente o preço de uma ação, assim como qualquer outra negociação. Se muitas pessoas, por exemplo, decidirem comprar uma determinada ação ao mesmo tempo, o seu preço naturalmente vai subir, uma vez que os vendedores, ao notar tamanha procura, vão elevar o preço da venda.

O contrário também é válido: se muitas pessoas quiserem se desfazer de uma ação, o preço dela vai cair por conta de que há muitas pessoas vendendo o ativo em questão. Todas essas ordens, tanto de compra quanto de venda, são disponibilizadas a investidores no home broker das corretoras.

Já o cenário macroeconômico tem impactos tanto no mercado de Bolsa em geral quanto em determinadas ações. Por exemplo, o cenário de juros, a variação do dólar e os riscos políticos tendem a afetar o mercado como um todo, mas uma variação no preço do minério de ferro ou alterações na oferta de petróleo podem causar mais efeitos nas empresas do setor de commodities e energia.

Vamos agora explicar um dos mecanismos mais conhecidos do mercado financeiro, os fundos de investimento.

Fundos de investimento

Um fundo de investimento pode ser comparado a um condomínio, mas não daquele tipo em que você, amigos ou seus pais moram.

Estou falando de um condomínio em que você e todas as pessoas que moram nele delegam a um síndico a tarefa de investir seus recursos em uma estratégia específica.

A cota pode ser entendida como o menor pedaço de um fundo de investimento. Os vizinhos, nesse caso, são chamados de cotistas, ou seja, os donos das cotas dos fundos, enquanto o síndico é o gestor desse fundo.

Do mesmo modo que temos os vizinhos e o síndico, temos também os zeladores do condomínio, certo? Eles são os demais prestadores de serviço do fundo, como o administrador, o auditor independente e o custodiante. Todas essas pessoas têm um papel definido no dia a dia do fundo, o que ajuda a mitigar os riscos para quem investe.

Os fundos possuem um documento chamado regulamento, no qual consta toda a estratégia do fundo, seus limites e suas possibilidades de investimento. Tal qual um regulamento de condomínio, explica o que um gestor pode ou não pode fazer.

Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tem o papel de fiscalizar a cadeia de prestadores do fundo e, em caso de descumprimento das regras estabelecidas, aplicar as devidas punições.

O fundo, por ser como um condomínio com várias pessoas, dá escala a uma estratégia de investimentos que, por falta de volume de recursos, não poderia ser realizada por uma pessoa sozinha. Com isso, ele dá a investidores comuns o direito de investirem como "gente grande", mesmo que o bolso esteja pequeno.

Na nossa carteira, temos dois tipos de fundos de investimento: fundos de crédito privado e fundos de investimentos imobiliários (FIIs). Agora, vamos explicar com mais detalhes cada um deles:

1. Fundos de crédito privado

São fundos que podem ter mais do que 50% de suas carteiras alocadas em ativos de crédito privado, ou seja, debêntures, letras financeiras, certificados de recebíveis imobiliários (CRIs), fundos de investimentos em direitos creditórios (FIDCs), entre outros.

Os ativos de crédito costumam pagar um prêmio acima da rentabilidade dos títulos públicos, o famoso spread de crédito. Quanto maior o estresse do mercado, ou quanto maior o risco de crédito do ativo, maior o prêmio a ser pago para as pessoas que querem comprar essas dívidas e, consequentemente, maior o spread de crédito.

Mas nem tudo são flores. Esses títulos possuem atrelados a eles o famoso risco de crédito, justamente por isso pagam o spread de crédito, que visa mensurar quanto de prêmio em relação a um título público esses ativos precisam pagar para cobrir o risco de crédito. É aquela ideia: quanto maior o risco, melhor tem que ser o retorno para quem investe.

Os ativos de crédito privado são conhecidos por não possuírem alta liquidez, ou seja, se comprarmos títulos desse tipo individualmente, corre-se o risco de, no momento da venda, nossa posição deixar de ganhar rentabilidade relevante ou pagar uma taxa elevada.

Nesse momento em que o benefício de investir fundos entra em ação, ao investirmos em crédito através deles, pulverizamos nosso risco de crédito, já que, ao comprarmos uma cota de um fundo de crédito, estamos comprando uma participação da carteira de crédito do fundo, que é composta de uma série de ativos de diversos emissores.

2. Fundos de investimentos imobiliários (FIIs)

Os fundos imobiliários, como o próprio nome sugere, investem seus recursos em empreendimentos imobiliários. Eles podem ser negociados em Bolsa de Valores e contam com isenção de IR na distribuição de seus lucros nas seguintes condições: se distribuírem 95% dos seus lucros, se suas cotas forem negociadas em Bolsa, se o cotista detiver menos de 10% de cotas do fundo e se eles tiverem no mínimo 50 cotistas.

Para operações que tenham rendimento positivo na venda de cotas de fundos imobiliários, a alíquota do Imposto de Renda é de 20% do ganho de capital, a ser declarada em Darf, o Documento de Arrecadação de Receitas Federais. O investimento no setor de FIIs se dá de forma indireta, ou seja, pela compra de cotas dos fundos, e não pela aquisição direta de um imóvel ou de crédito atrelado a um imóvel. E, por conta disso, existem várias vantagens em se utilizar esse método de investimento. Aqui quero citar três:

  • FIIs têm ótima liquidez para investidores pessoas físicas. Facilmente encontramos fundos imobiliários negociando mais de R$ 5 milhões por dia na Bolsa de Valores. Vale salientar que a liquidação da operação ocorre em dois dias, e estamos falando de um processo totalmente digital, bem diferente da negociação tradicional de imóveis, concorda?
  • FIIs são geridos por profissionais do ramo. Isso significa que existe um time de profissionais por trás de cada operação, o que garante mais força na negociação com locatários, afinal, são profundos conhecedores do mercado e que têm escala para obter diversas vantagens para o fundo.
  • Baixo valor de entrada: existem dezenas de fundos imobiliários cujas cotas são negociadas por ao redor de R$ 100, sendo que alguns até abaixo disso. Ou seja, pequenos investidores podem ter em seu portfólio uma participação em prédios de alta qualidade nas melhores localizações, ou condomínios logísticos ocupados por gigantes do e-commerce, sem a necessidade de desembolsar um grande recurso.

As cotas dos FIIs variam dia a dia seguindo o mesmo princípio da oferta e da demanda e dos efeitos macroeconômicos que explicamos na seção de ações. Outros fatores de risco envolvem a própria operação do setor de imóveis ou do crédito que o fundo imobiliário possui: localização dos imóveis, qualidade dos ativos em carteira, vacância e indexadores de contratos.

Títulos públicos com pagamento de juros semestrais

Um título público é um mecanismo para que investidores e investidoras possam emprestar dinheiro para o governo. Em troca, espera-se que esse montante seja corrigido por um indexador e que, no período vigente desse “empréstimo”, o governo não passe por nenhum problema de caixa que o impeça de pagar suas dívidas – no caso, devolver o dinheiro emprestado corrigido pelas taxas.

Neste relatório, focaremos a nossa análise nos títulos públicos que possuímos em carteira, os que realizam pagamento de juros semestrais. Eles podem ser prefixados ou indexados à inflação, e, a cada semestre, esses ativos pagam um percentual predefinido: 6% para os indexados à inflação e 10% para os prefixados na forma de cupom de juros.

Como exemplo, segue o cálculo do valor do cupom de juros pago todo semestre pelo Tesouro Prefixado com pagamento de juros semestrais (NTN-F), definido pela seguinte fórmula:

Aqui, VN significa Valor Nominal – nesse caso, de R$ 1 mil para o valor do título. A partir disso, obtemos o seguinte:

O valor do cupom não se altera. Porém, de acordo com as perspectivas da taxa de juros, o valor presente do título vai sofrer mudanças, inclusive, por possuir um tempo considerável até seu vencimento, esses títulos possuem uma oscilação diária relevante, a maior entre os títulos públicos.

Atualmente, na plataforma do Tesouro Direto, os títulos com pagamento de juros disponíveis para investidores pessoa física são de longo prazo (com vencimento em mais de 10 anos):

Fonte: Tesouro Direto

Títulos de longo prazo possuem o maior risco de mercado entre os títulos públicos e uma alta correlação com as perspectivas fiscais do Brasil. Ou seja, se o país melhora suas perspectivas fiscais, esses ativos tendem a aumentar sua rentabilidade também; por outro lado, se o risco do país aumenta, esses títulos passam a ter uma performance negativa.

Conclusão

O mercado financeiro possui uma vasta quantidade de veículos de investimentos, cada um com sua natureza e riscos específicos. Por exemplo, para emprestar dinheiro para o governo, investimos em títulos públicos; para virar sócia ou sócio de uma empresa, em ações. Se o assunto for delegar a um time competente com uma estratégia específica de investimento, fundos de investimento.

Atualmente, na carteira da série Renda Total possuímos todos esses tipos de investimentos para maximizar o retorno de longo prazo enquanto aproveitamos o pagamento de dividendos recorrentes.

Esperamos que vocês possam consultar este relatório quando ficarem com alguma dúvida sobre o funcionamento de cada um deles e o papel que desempenham em nosso portfólio.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.