Relatórios

Um semestre para ser esquecido? Fechamento da renda fixa

Escrito por Guilherme Cadonhotto, Rodrigo Xavier em RENDA FIXA

15 min de leitura

Como anda a sua meta do ano?

Já perdeu alguns quilos? Começou a estudar inglês? Começou o seu próprio negócio?

Quando alcançamos a metade do ano, no final de junho, normalmente, as pessoas param para refletir sobre o seu avanço até o momento. Essa reflexão pode ser tanto nos aspectos pessoais quanto profissionais. Provavelmente, se você definiu algum tipo de meta para o ano, agora deve estar em um momento de reflexão para entender se está no caminho certo.

No mundo dos investimentos isso também é comum, ainda mais para fundos de investimento.

O meio do ano é um período em que diversos veículos de comunicação ligados a investimentos elaboram uma série de rankings:

·       As melhores ações do primeiro semestre;

·       Os melhores fundos imobiliários do primeiro semestre;

·       Os fundos de investimento de destaque da primeira metade do ano.

Em breve, você deverá observar matérias com essas chamadas - o que é normal. De tempos em tempo, é interessante observar qual foi o desempenho de nossos investimentos e, inclusive, compará-los com outras opções dentro do nosso mercado.

Por isso, no relatório de hoje, vamos olhar o desempenho dos principais índices e ativos da renda fixa no primeiro semestre do ano. Posteriormente, vamos explicar o motivo pelo qual observamos esse movimento e, por fim, realizar alguns ajustes na carteira de menor patrimônio dentro de nossa carteira recomendada.

Quais índices iremos analisar?

Dentro do universo de renda fixa, vamos começar a analisar os principais índices do mercado brasileiro, como o CDI, o IMA-B e o IRF-M. Se você não sabe quais são, tudo bem, eu vou te explicar.

CDI (Certificado de Depósito Interbancário)

O CDI é o principal índice de referência, não só da renda fixa, mas do mercado brasileiro como um todo. Mas isso tem um sentido. É simples e fácil encontrar um ativo que vai te apresentar a rentabilidade do CDI, com liquidez diária e com o menor risco possível, dentro do universo de ativos brasileiros. Um exemplo clássico é o Tesouro Selic.

Você investe seu dinheiro nesse título público e dia a dia ele será corrigido pela taxa Selic, que é sempre muito próxima à taxa do CDI.

IRF-M (Índice de Renda Fixa Mercado)

O nome do índice, de fato, não diz muita coisa, porque temos diversos índices no mercado de renda fixa. Mas feita essa observação, precisamos lembrar que o IRF-M é o índice dos títulos públicos prefixados.

Os prefixados são aqueles títulos que têm sua remuneração definida no momento da compra por uma taxa anual de retorno, por exemplo, o Tesouro prefixado.

A sua remuneração do título é conhecida no momento da compra, se você mantiver o mesmo até o vencimento. O caminho até lá pode ser tortuoso, ou seja, volátil.

A alteração de preços que ocorre dia a dia nos títulos prefixados é o que chamamos de marcação a mercado, que significa reconhecer um título pelo seu valor justo dada as condições atuais.

Então, para relembrar, o IRF-M é o índice dos títulos públicos prefixados.

IMA-B (Índice de Mercado Anbima – Série B)

A sua primeira pergunta pode ser: Quem é a Anbima?

A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais fala em nome de instituições como bancos, gestoras, corretoras, distribuidoras e administradoras.

O objetivo da Anbima é representar, autorregular, informar e educar.

A Anbima desenvolveu alguns índices de renda fixa, incluindo o IRF-M dos prefixados e o IMA-B.

O IMA-B é o índice dos títulos públicos indexados à inflação, os famosos IPCA+.

Como funcionam os índices?

Os índices de mercado, como o IRF-M e o IMA-B, são compostos por diversos títulos públicos de mesma categoria. As oscilações de ambos se dão pela variação no preço de cada título que os compõem.

Por exemplo, se um índice é composto por um único título público, a oscilação do índice seria exatamente a mesma que a do título. Se o título se valorizasse 10%, o índice também apresentaria uma variação positiva de 10%, o contrário também seria verdadeiro.

Em caso de índices com mais de um título, como o IRF-M e IMA-B, a oscilação depende da oscilação de todos os títulos que o compõem. Cada título público representa um percentual, ou seja, um pedaço daquele índice. É papel da Anbima verificar diariamente a oscilação do preço de cada um dos títulos públicos que compõem os índices, além de verificar no final qual a oscilação de cada um dos índices elaborados e divulgados por ela.

Desempenho no semestre:

Se você já investe seu dinheiro segundo nossas recomendações, deve ter percebido que o primeiro semestre do ano não foi um período tranquilo para ativos que apresentaram qualquer adicional de risco, mas se ainda não parou para analisar, vamos começar a deixar isso mais claro.

Desempenho 1º semestre 2024:

image.png
image.png

Figura 1Fonte: Quantum e Finclass

O CDI acumula alta de 5,2% no ano.E, apesar de observarmos a queda da Selic ao longo de praticamente todo o primeiro semestre (o que diminui o retorno diário do CDI), ele ainda encerrou o primeiro semestre na liderança dos índices de renda fixa no Brasil.

Em segundo lugar, está o IRF-M, índice dos títulos públicos prefixados.

Veja, o IRF-M apresentou um retorno de 1,5% no primeiro semestre do ano, bem abaixo do índice com o menor risco no Brasil que é o CDI.

A volatilidade do IRF-M, que é uma medida de risco que nos mostra o tamanho das oscilações de um determinado investimento, é de aproximadamente 2,50%, uma volatilidade significativamente baixa.

Então, o IRF-M, mesmo com volatilidade baixa, apresentou uma performance bem inferior ao CDI no período.

Isso pode nos dar uma ideia de que quanto maior o risco do ativo(ou índice) nesse semestre, pior a performance. Mas vamos continuar.

Em último lugar nessa comparação, ficou o IMA-B, o índice dos títulos públicos indexados à inflação, com uma performance negativa de 1,1%.

O que significa que quem tinha dinheiro no IMA-B no início do ano deve ter observado uma leve perda ao longo do primeiro semestre.

Para uma base de comparação, o IMA-B tem uma volatilidade (medida de oscilação de preços) de aproximadamente 3,90%, significativamente maior do que o IRF-M e, por isso, apresentou uma performance ainda pior do que a do IRF-M.

Mas a comparação dos ativos de renda fixa no semestre acaba por aqui?

De jeito nenhum.

Há outras “quebras” dentro dos índices que falamos, ou seja, subíndices.

Apesar de o IRF-M ser o índice dos títulos públicos prefixados, e o IMA-B ser o índice dos títulos públicos indexados à inflação, dentro da mesma categoria os títulos podem apresentar desempenhos muito diferentes entre si.

Essa diferença acontece, principalmente, pela diferença entre seus prazos de vencimento.

Quanto menor o prazo de vencimento de um título público, menores as oscilações de preço que ele apresenta ao longo dos dias; quanto maior o prazo de vencimento, maiores essas oscilações.

Há outra diferença: os títulos de prazo mais curto, normalmente, têm uma performance atrelada às expectativas de juros e inflação para os próximos meses no país. Já os títulos de prazo mais longo estão atrelados às perspectivas de longo prazo; ou seja, além da expectativa de juros e inflação para os próximos anos, também estão relacionados à situação fiscal e política do próprio país.

Há uma quebra nos índices de renda fixa, tanto no IRF-M quanto no IMA-B, que pode nos mostrar a diferença entre o desempenho dos títulos de prazo mais curto e os de prazo mais longo:

Quebra nos prefixados:

IRF-M 1: Formado por títulos públicos prefixados que vencem em até um ano.

IRF-M 1+: Formado por títulos públicos prefixados com vencimentos acima de um ano.

image.png
image.png

Figura 2Fonte: Quantum e Finclass

No gráfico acima, fica mais claro que os títulos prefixados de prazo mais longo, representados pelo IRF-M 1+ na linha laranja, apresentaram um desempenho fraco no semestre - valorizaram apenas 0,2% ao longo da primeira metade do ano.

O IRF-M1, que nos mostra os prefixados de curto prazo, apresentou variação semelhante à do CDI, mas, mesmo assim, um pouco abaixo do índice mais conservador do mercado brasileiro.

Mesmo com risco baixíssimo, presente no IRF-M1, podemos notar que ele ficou abaixo do principal índice dos prefixados de curto prazo.

Vale lembrar que a performance do IRF-M como um todo ficou em 1,51% no mesmo período. Se manteve mais perto do índice de prazo mais longo justamente porque, no IRF-M cheio, os títulos prefixados de longo prazo são mais representativos do que os de curtíssimo prazo (menos de um ano).

Quebra nos indexados à inflação:

IMA-B 5: Índice dos títulos públicos indexados à inflação que vencem em até cinco anos.

IMA-B 5+: Índice dos títulos públicos indexados à inflação que vencem em prazo superior a cinco anos.

image.png
image.png

Figura 3Fonte: Quantum e Finclass

No gráfico acima, podemos notar um comportamento semelhante.

Os títulos indexados à inflação de curto prazo, apesar de terem ficado para trás do CDI no semestre, apresentaram uma performance positiva de 3,3%, já os indexados à inflação de longo prazo apresentaram uma performance bem ruim: um retorno negativo de 5% na primeira metade do ano, o que consequentemente puxou a performance do índice geral, o IMA-B, para trás.

Diferentemente das quebras do IRF-M, que divide prazos extremamente curtos (menos de um ano) dos demais, levando a uma performance semelhante à do IRF-M1+,aqui no IMA-B, a divisão é um pouco mais equilibrada, você tem uma participação relevante tanto do índice de curto prazo quanto do de longo prazo.

 A análise tanto dos prefixados quanto dos indexados à inflação nos mostra que o desempenho dos ativos estava atrelado ao seu nível de risco, porém para o lado negativo - quanto maior o risco, pior a performance.

Para confirmar essa hipótese, antes de olhar os destaques de performance da nossa carteira de renda fixa no ano, vamos verificar a performance dos índices prefixados separados por prazos.

Assim, teremos a noção completa de quem são os detratores de rentabilidade dos brasileiros ao longo do primeiro semestre.

IDKA, o índice de prazo fixo

No relatório de indicação do FIXA11, ETF de prefixados de curto prazo, eu apresentei o conceito de índice de prazo fixo. A ideia é replicar um ativo, seja ele prefixado ou indexado à inflação, que mantém sempre um prazo fixo, em anos, de vencimento.

Por exemplo, se estamos olhando um IDKA prefixado de 3 anos e o hoje é dia 8 de julho de 2024, seu vencimento será em 8 de julho de 2027; porém, ao analisar o mesmo índice no dia 30 de novembro de 2024, o “prazo de vencimento” do índice será 30 de novembro de 2027.

Analisá-los em um semestre, pode nos dar a ideia de quais são os ativos que apresentaram as piores performances.

IDKA Prefixados

Vamos fazer a análise por prazo de prefixados e entender quais apresentaram as melhores e as piores performances:

image.png
image.png

Figura 4Fonte: Quantum e Finclass

A análise de quais ativos de maior risco apresentaram a pior performance condiz com o desempenho dos prefixados. Os prefixados de cinco anos de desvalorizaram 4,5% no semestre. Quanto maior o prazo do prefixado que você tinha, ou tem, na carteira, pior a sua performance.

IDKA Indexados à inflação

Vamos à análise dos indexados à inflação por prazos específicos:

image.png
image.png

Figura 5Fonte: Quantum e Finclass

Assim como nos prefixados, podemos notar que quanto maior o prazo, que se traduz em volatilidade (balanço nos preços), pior a performance do ativo indexado à inflação.

Note que, o IPCA+ de 30 anos se desvalorizou no semestre quase 20%.

Dá para entender, por enquanto, olhando apenas para os ativos de renda fixa, que o semestre não foi positivo para ativos de risco.

Destaques positivos das carteiras de renda fixa no semestre:

Carteira de Valorização (JURO11) 5,89% no semestre:

Olhando para o relatório, até o momento, não seria surpresa esperar um destaque para a performance dos ativos pós-fixados na parte de renda fixa, aqueles atrelados ao CDI ou a taxa SELIC; isso porque até o momento, o que vimos foi: mais risco, pior o retorno.

Mas precisamos entender que o risco no qual focamos até o momento é o famoso risco de mercado, expresso pela volatilidade, que nada mais é do que o balançar de preços dos ativos.

Temos outros riscos envolvidos na renda fixa que podem mudar o resultado de um investimento de maneira razoável até em períodos curtos, como o semestre.

Além da volatilidade, que é o que chamamos de risco de mercado, o risco de crédito pode te ajudar, desde que bem manejado; é justamente esse o fator que ajudou o JURO11, nosso destaque do semestre.

O risco de crédito é o risco que se corre ao comprar um título de renda fixa, ou seja, emprestar dinheiro para algum governo ou empresa e esse emissor “quebrar”, ou passar dificuldades financeiras no meio do caminho a ponto de aplicar o famoso calote, ou conhecido formalmente como default.

Quando você compra um título público há um risco de crédito embutido nele, ou seja, a probabilidade do governo brasileiro “quebrar” ou passar por dificuldades financeiras. Por outro lado, quando se investe em crédito privado, seja através de CDBs, LCIs, LCAs e afins, o JURO11 é um fundo de infraestrutura que direciona a maior parte do seu dinheiro para debêntures, ou seja, basicamente empresta dinheiro para que grandes empresas financiem seus projetos de infraestrutura.

Se um fundo consegue equilibrar bem a relação risco de crédito e expectativa de retorno, ele apresentará performance de destaque ao longo do tempo.É o que o JURO11 conseguiu fazer bem ao longo dos últimos semestres. Isso vem mostrando resultados de maneira consistente, inclusive no último semestre, quando o fundo apresentou performance de 5,89% no semestre.

Você talvez se pergunte:

“Poxa, Gui, o destaque da renda fixa ficou levemente acima do CDI do período, como podemos dizer que o fundo vem fazendo um bom trabalho?”

Precisamos lembrar que o índice de referência, o famoso benchmark, do JURO11 não é o CDI e, sim, o IMA-B5, que no semestre apresentou retorno de 3,3%; ou seja, o JURO11 entregou um retorno quase 2,60% maior do que a sua referência no semestre.

Carteira de Renda (IFRA11) 9,16% no semestre:

Assim como o JURO11, o IFRA11 também é um fundo de infraestrutura e, assim como o JURO11, investe a maior parte de seu patrimônio em debêntures, ou seja, títulos de crédito, as famosas debêntures.

A diferença para o JURO11 é o seu índice de referência. O JURO11 tem como referência o IMA-B5, que é o índice dos títulos públicos indexados à inflação de curto prazo. Já o IFRA11 tem como referência o IMA-B, a cesta completa de títulos públicos indexados à inflação e, nesse caso, um único número, o “5”, faz toda a diferença.

O IMA-B possui um prazo médio de vencimento bem maior do que o IMA-B5, o que significa que em momentos positivos ele é menos beneficiado, porém em negativos ele se defende melhor.

O primeiro semestre foi um exemplo bom.

Apesar de ambos fazerem uma boa gestão de crédito, a recompensa pelo acerto no IFRA11 foi maior justamente pelo prazo médio de seus títulos ser maior também.

Claro que, se por ventura se descuidarem da qualidade dos ativos lá dentro e enfrentarem um momento negativo, isso se reverterá em uma queda significativa na performance, maior do que se eventualmente acontecesse sobre o JURO11.

Destaques negativos das carteiras de renda fixa no semestre:

Carteira de Valorização (Tesouro IPCA+ 2045) -13,54% no semestre:

A hipótese apresentada ao longo do relatório foi confirmada:  quanto maior o risco, menor o retorno. O Tesouro IPCA+ 2045, ao menos até o momento, é o ativo dentro da carteira de renda fixa que mais sofreu ao longo do semestre.

Vale lembrar que ele é um ativo de risco elevado e que oscilações desse patamar são comuns, até por isso a exposição do ativo em nossas carteiras é comedida.

Lembre-se que, atualmente, o nível de taxa do Tesouro IPCA+ 2045 é elevado e historicamente se apresentou como um patamar extremamente vantajoso para quem o adquiriu. Minha recomendação é de que se você não tem ainda exposição ao Tesouro IPCA+ 2045, o faça agora. Se você já tem, aproveite para checar se o percentual está adequado ao recomendado.

Carteira de Renda (Tesouro IPCA+ 2055 com juros semestrais) -7,78% no semestre:

Não temos muito o que agregar, afinal estamos falando também de um título indexado à inflação, porém, dessa vez, de um que paga juros semestrais e, por isso, apesar do vencimento mais longo do que o ativo citado anteriormente, teve performance negativa mais amena.

*Ativos que pagam juros têm uma sensibilidade de preço menor do que ativos que não pagam, desde que façamos a comparação usando ativos de mesmo prazo.

Os motivos por trás da performance negativa do semestre

Podemos dividir as causas dessa performance negativa, basicamente, em duas partes, a piora internacional e a nacional.

Do lado internacional, podemos destacar uma piora nas expectativas de juros nos EUA.

No início do ano, o mercado (conjunto de investidores do mundo todo) esperava que o juro americano começasse a cair ainda no primeiro trimestre de 2024.

Seis meses depois, ou seja, hoje, o banco central não iniciou o ciclo de corte de juros e o mesmo mercado espera que haja, no máximo, apenas dois cortes de juros na terra do Tio Sam.

Esse movimento leva a um aumento da taxa de juros nos EUA.

Vamos dar uma olhada nos juros de curto prazo nos EUA, de dois anos:

image.png
image.png

Figura 6Fonte: Investing

Os juros de dois anos nos EUA saíram de aproximadamente 4,20% para 4,75% ao ano.

Isso significa que, um dos investimentos mais seguros do mundo, simplesmente, passou a remunerar mais os investidores e, detalhe, em dólar.

Esse movimento de alta nos juros não impactou apenas o juro de curto prazo americano, mas também os juros de longo prazo. Veja o movimento dos juros de 10 anos:

image.png
image.png

Figura 7Fonte: Investing

Em termos de magnitude, a alta foi similar. Mas gostaria de destacar que a alta do juro americano ocorreu tanto nos ativos de curto quanto nos de longo prazo.

Esse movimento faz com que mais pessoas busquem investir em títulos americanos, o que fortalece a moeda dos EUA com relação a praticamente todas as outras no mundo.

No gráfico abaixo, você pode ver o dólar contra uma cesta de moedas de países desenvolvidos. Se o gráfico sobe significa que o dólar está ganhando força contra outras moedas:

image.png
image.png

Figura 8Fonte: Investing

No ano, o dólar valorizou aproximadamente 5% contra outras moedas de países desenvolvidos.

O movimento contra moedas de países em desenvolvimento, ou subdesenvolvidos, como o Brasil, é ainda mais forte.

O que isso significa?

Que ao longo do semestre importamos um sentimento negativo para os ativos de risco por aqui, o que impactou as suas respectivas taxas e preços.

Já em âmbito nacional, podemos destacar o aumento das incertezas fiscais e políticas, que afetaram o chamado risco país, ou seja, o temor dos investidores com relação à sustentabilidade das contas públicas brasileiras.

Ao longo do semestre, os resultados fiscais do Brasil surpreenderam de maneira negativa, ou seja, vieram pior do que o esperado.

A ausência de discursos enfatizando o compromisso com as regras fiscais e o constante embate com o Banco Central de nada ajudaram a acalmar o ânimo dos investidores.

Esse aumento da incerteza se traduz no aumento do risco país, que pode ser monitorado pelo indicador chamado CDS, em inglês Credit Default Swap.

A desconfiança com relação à estabilidade da dívida pública brasileira, juntamente com a desvalorização cambial, pode ser vista como uma proteção ou seguro contra o risco de inadimplência de um emissor de títulos de renda fixa.

Para simplificar, vamos fazer uma analogia com o seguro de um carro. Se um carro passa a ser visado para roubos e vendas de suas peças, o preço do seguro tende a aumentar, afinal, a seguradora não quer sair no prejuízo.

Com o CDS funciona basicamente da mesma maneira. Conforme aumenta o risco de algum emissor, no caso um país, ter problemas com seus títulos públicos, o valor do CDS também sobe. Veja o movimento do CDS Brasil ao longo do semestre:

image.png
image.png

Figura 9Fonte: World Government Bonds

Desconsiderando os picos gerados por falta de liquidez, podemos ver que o CDS do Brasil subiu de maneira relevante ao longo do semestre, saindo de 132 pontos até o patamar de aproximadamente 170 pontos.

Ou seja, a piora do semestre foi gerada não só por um movimento internacional, mas também por uma piora idiossincrática brasileira.

Mas esse movimento pegou apenas os ativos e índices de renda fixa?

Para responder essa pergunta, vamos analisar o IBOVESPA, o IDIV e o SMLL, índice de small caps na parte de ações, e o IFIX, na parte dos fundos imobiliários.

O IBOVESPA é o principal índice de ações do Brasil e é representado pelas maiores e mais negociadas empresas da bolsa brasileira.

O IDIV tem por objetivo ser o indicador do desempenho médio das cotações dos ativos emitidos por companhias abertas que se destacaram em termos de remuneração dos investidores, sob a forma de distribuição de dividendos e juros sobre o capital próprio. Em outras palavras, ele é formado por empresas que pagam bons dividendos, normalmente com mais tempo de vida, mais maduras e, consequentemente, com menor risco do que a média das ações e empresas no Brasil.

O SMLL representa o desempenho médio das empresas de menor capitalização da bolsa brasileira, mas com critérios de liquidez.

Já o IFIX é o principal índice de fundos imobiliários do Brasil.

image.png
image.png

Figura 10Fonte: Quantum e Finclass

Olhando o gráfico acima, podemos notar que não apenas a renda fixa brasileira foi impactada negativamente, mas também os indicadores de renda variável.

O IFIX, apesar de fechar o semestre em patamar positivo, ficou distante do CDI. O IDIV, índice das empresas de dividendos da bolsa brasileira, apesar de apresentar menor risco, ainda assim acumulou rentabilidade negativa no semestre. E, antes que você pergunte, eu já te digo que o índice considera o reinvestimento dos dividendos.

O IBOVESPA, com rentabilidade negativa de 7,7%, quase ficou com a lanterna; mas mesmo com um desempenho tão ruim ainda ficou à frente do índice Smll, que apresentou um retorno negativo de quase 15% no semestre.

Analisando os índices de renda variável no semestre, podemos notar que o impacto negativo não se abateu somente aos ativos de renda fixa, mas também nos ativos de renda variável, como ações e fundos imobiliários.

Essa relação entre renda fixa e renda variável nem sempre é linear, basta analisarmos o caso dos EUA nesse mesmo semestre. Os índices de ações apresentaram um desempenho muito positivo em 2024, puxados principalmente por ações de tecnologia, enquanto os índices de renda fixa ainda lutam para apresentar performance positiva.

Apesar das dificuldades, continuamos acreditando que o momento seja oportuno para a aquisição dos ativos de risco no Brasil, esses que, ao longo do primeiro semestre, sofreram.

Vale lembrar que a parte mais importante de investir bem é adquirir bons ativos a bons preços e taxas; depois, é exercitar a paciência para aguardar um bom momento para colher os frutos dessas boas aquisições.

Pelo andar da carruagem, ainda teremos um tempinho para comprar bons ativos a bons preços e taxas. Aproveite!

Abraços,

Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.