No formato que está hoje, provavelmente o BTC não será o responsável por um novo sistema financeiro. Ele pode vir a ser realmente o novo ouro digital, mas sua aplicação ainda é bem limitada. Por isso, acredito que não vai conseguir englobar os ativos tradicionais nem toda complexa estrutura do mercado financeiro tradicional.
Mas calma, não tem problema algum nisso. Não estou sendo pessimista, apenas conservador com a ideia de que o BTC tem um objetivo claro. Além disso, o ouro atualmente é o ativo mais valioso do mundo, então, certamente é um objetivo interessante para o BTC.
Enquanto isso, a Ethereum possui inúmeras funcionalidades e nenhum objetivo específico. Mas ela, sim, pode criar um novo sistema financeiro ao tokenizar ativos tradicionais, realizar operações de câmbio, empréstimos automáticos, liquidações internacionais, entre muitas outras funcionalidades.
O ativo passou recentemente por uma das maiores atualizações de todo a mercado cripto ao finalizar sua transição para Proof-of-Stake com a atualização Shapella, e desde então tem sido possível sacar os ETH depositados na rede. Completar essa atualização foi um divisor de águas para o projeto, já que tivemos mudanças drásticas nas características do ativo.
Como será que a Ethereum se comportou durante o período de baixa do mercado cripto? Será que a atualização já surtiu efeitos positivos neste ano? É o que vamos ver hoje.
Revisão da atualização
Fazendo um brevíssimo resumo inicial, o The Merge marcou a transição da rede da Ethereum do Proof-of-Work (PoW) para o Proof-of-Stake (PoS). Além de o ETH deixar de ser minerado por computadores, a maior mudança na estrutura do ativo foi que a produção de novas moedas caiu drasticamente, cerca de 88%. Também houve uma otimização no modelo de cobrança de taxa, que passou a queimar (burn) mais ativos por cada transação realizada.
Considero essa mudança uma das maiores de todo o mercado cripto, pois todo o processo começou em 2020 e durou até setembro de 2022, quando a rede da Ethereum deixou de ser PoW e passou a ser PoS. Durante esse período, os investidores que colocaram seus ETH em staking não tinham a opção de sacar seus ativos de volta. Por isso, só quem realmente acreditava no projeto para o longo prazo fez o staking de ETH.
Os saques dos ativos só foram liberados em abril deste ano, depois da última atualização da rede conhecida por Shapella, finalizando assim toda a transição na governança do projeto. Esse tema foi abordado neste relatório há três meses. Por isso, no texto de hoje, vamos retomar o assunto a partir desta última atualização.
Impactos da atualização Shapella
No relatório de atualização da Shapella, comentei bastante sobre um temor muito grande do mercado: a venda de ETH em massa depois que os saques fossem liberados.
Mas as minhas expectativas se mostraram certeiras: esse movimento não se concretizou. Primeiro, porque tínhamos alguns limites impostos pela rede, como número de investidores por bloco e quantidade de ativos. Segundo, realmente não estava valendo a pena vender o ETH com o preço baixo registrado naquele momento. Terceiro, porque quem colocou o ativo em staking realmente pensa no longo prazo.
ETH depositados e número de validadores
Podemos notar como, a partir da atualização Shapella, o depósito de ETH na rede acelerou bastante. Isso acontece pelo fato de que o projeto seguiu seu cronograma, o que aumentou a credibilidade e confiança nele. Atualmente, são 24,12 milhões de ETH depositados na rede, o que representa 17,6% do total de moedas em circulação.
Esse aumento demonstra que está havendo muito mais depósito de ETH do que saques, conforme podemos medir no gráfico abaixo.
Depósitos e saques da rede
Inicialmente, tivemos, sim, uma alta demanda pelos saques, que durou aproximadamente a segunda quinzena de abril. Em maio, apesar dos saques significativos, os depósitos já começaram a superar as retiradas. O saldo positivo se manteve praticamente o tempo todo nos últimos meses, conforme o gráfico em verde acima.
Com o aumento tanto do número de validadores quanto do número de ETH depositados na rede, o rendimento do staking teve uma rápida queda, saindo da casa dos 9% antes da Shapella para 5,55% atualmente.
Esse movimento acontece, pois quanto mais ativos depositados na rede, menor o rendimento do staking. Isso porque o ganho maior serve para atrair novos investidores, além disso, o ETH produzido é constante e dividido entre um maior número de investidores.
Outro motivo é que houve uma redução na produção de novas moedas no PoS, em que uma parcela maior das taxas é queimada. O lado positivo é que, mesmo com a Ethereum não tendo um limite máximo de moedas como no BTC, agora é possível diminuir o número de ETH em circulação, principalmente em momentos de grande volume de negociação.
Essa redução do número de ETH em circulação ficou bem nítida após a atualização Shapella, como podemos ver no gráfico a seguir.
ETH em circulação após o The Merge
Em uma visão mais ampla, desde a atualização do The Merge, há cerca de dez meses, o número de ETH em circulação diminuiu 0,291%, mas a queima de ativos acelerou em abril depois da atualização Shapella. A estabilidade recente indica que a produção e a queima de ativos estão sendo semelhantes, contudo, só de não estar aumentando, já é um ponto positivo.
Essa redução pode parecer pequena, mas lembre-se de que estamos no período de baixa do mercado. Por isso, qualquer demanda da rede um pouco maior do que a atual (quem sabe com o início da temporada de alta) ou algum projeto se popularizando já será o suficiente para a queima de ETH superar a sua produção e, consequentemente, aumentar a escassez do ativo.
Os projetos que mais favoreceram a queima de ETH são:
Ranking de projetos que mais queimaram ETH
Um dos projetos que se beneficiou bastante no início da mudança foi a Lido (LDO), mas nesse caso não temos a necessidade de operações frequentes. Por isso, de forma geral, não foram projetos que se beneficiaram diretamente da atualização do PoS, mas, sim, do aumento do número de transações na rede.
Além do burn que favorece a escassez, podemos considerar que os ativos em staking também são tirados de circulação, pois esses investidores não pretendem movimentá-los no curto prazo, assim, esse número só tende a aumentar – o que fortalece ainda mais a ideia de escassez.
Atualizações gerais da Ethereum
A Ethereum segue sendo o projeto com maior capitalização depositado em staking com um valor de US$ 41 bilhões, mais de quatro vezes a SOL.
Ranking de staking
Agora, quando falamos em percentual do total de ativos em circulação, a Ethereum tem “apenas” 17,56%. Por um lado, pode parecer pouco, mas não considero baixo, sendo que seu staking atingiu sua maturidade há apenas três meses. O lado positivo é que mostra como ainda há bastante margem para crescer nos próximos anos e tirar ainda mais ETH de circulação.
Outra característica marcante da rede da Ethereum são as altas taxas, que recentemente chegaram a passar dos US$ 20.
Taxa da rede da Ethereum
Apesar de as taxas fazerem bastante diferença para pequenos valores financeiros, também são relevantes para quem executa operações frequentes, mesmo com valores maiores. Agora, para nós, hodlers com foco no longo prazo, podemos considerar as taxas elevadas até mesmo positivas, pois quando isso acontece, se queima mais ETH do mercado.
Além disso, podemos interpretar que o aumento das taxas é um sinal de que a temporada de alta pode estar chegando, assim como tivemos no fim de 2020, antes da forte alta de 2021.
E ainda que as taxas tenham diminuído a partir do meio de 2022, não tivemos uma queda muito significativa no número de transações da rede. Por não sofrer um aumento na taxa no período, isso indica que as pessoas simplesmente não tinham pressa para realizar suas transações, distribuindo melhor as transações ao longo do tempo.
Número de transações por mês
Nessas operações, podemos englobar qualquer transação feita na rede da Ethereum, seja realmente de ETH; de tokens ERC20, como LINK, SAND, ENJ; stablecoins, como USDT e DAI; troca de ativos nas DEX; seja de operações no mercado de DeFi ou de compra e venda de NFTs.
Por conta de todas essas possibilidades, mesmo no período de baixa de 2022, a rede da Ethereum conseguiu permanecer completamente ativa. Um dos motivos é que ela domina os principais setores que demandam operações frequentes, como o de DeFi.
Valor investido em DeFi por blockchain
Nesse momento de baixa, o investimento em outras plataformas menores de DeFi possuem um risco maior, por isso a Ethereum consegue atrair grande parte do público – quase 60% do capital investido em DeFi está na Ethereum atualmente.
O mesmo acontece no mercado de NFT. Como mercado em baixa, a liquidez desse tipo de ativo some, inviabilizando a negociação em mercados menores. Por isso, apesar de os NFTs já terem feito sucesso na rede da Cardano, da Solana e, mais recentemente, do BTC, é nítida a dominância da rede da Ethereum no setor.
Volume de negociação de NFT por blockchain
É claro que o mercado de NFT está sofrendo bastante ultimamente, mas pelo menos na rede da Ethereum, o setor ainda está vivo, muito diferente do que temos atualmente nas outras redes. Provavelmente, também é onde o setor vai se recuperar mais rápido do que nas demais blockchains.
Com o futuro aumento das negociações nesses diversos setores, teremos uma elevação nas taxas e, consequentemente, mais ETH queimados, diminuindo a oferta do ativo.
Conclusão
A mudança de PoW para PoS certamente foi uma virada de chave para o ativo. Uma decisão extremamente importante, feita em um momento delicado, com o mercado em baixa. Todo o processo foi executado com maestria e sua última etapa, a Shapella, completou essa transição.
Com isso, houve um aumento na confiança do projeto, que atraiu novos investidores para o staking, manteve a rede ativa ao dominar os mercados de DeFi e NFT, queimou mais ativos do que produziu, e, com tudo isso, tirou ETH de circulação.
Essa estratégia conseguiu trazer para o ativo uma característica que não lhe pertencia, a escassez, e que deve ser intensificada no período de alta do ativo, pois as transações voltarão a aumentar e, com certeza, vamos ter uma queima de ativos ainda mais forte.
Além disso, muitos outros projetos relacionados à Ethereum estão tendo sucesso nas suas aplicações, como a Polygon (MATIC) e a Arbitrum (ABR). Isso aumenta as suas possibilidades, fazendo com que os setores de NFT e DeFi permaneçam no seu ecossistema, o que a torna mais flexível e forte. Mas esse é assunto para outro relatório.
Forte abraço,
Thales