Relatórios

Uma visão detalhada do processo de rebalanceamento de uma carteira de investimentos

Escrito por Fillipe Colus, Felipe Arrais, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

10 min de leitura

Hoje, vamos mergulhar em três tópicos fundamentais: o que é rebalancear uma carteira de investimentos, como os dividendos podem te ajudar nesse processo e qual o impacto dos proventos nessa história.

Imagine que sua carteira de investimentos seja como uma orquestra: cada instrumento (ou ativo) tem seu papel específico com o objetivo de criar uma harmonia. Às vezes, alguns instrumentos podem começar a tocar mais alto que os outros, desequilibrando a música. O mesmo acontece com os ativos da sua carteira de investimentos. Quando isso acontece, é hora de "afinar" ou "rebalancear" sua carteira, para que cada ativo passe a contribuir da forma esperada para o desempenho geral.

Da mesma forma, depois de alguns meses, nossa carteira pode desafinar e impactar o equilíbrio do recebimento de nossos dividendos e dos investimentos. Ou seja, entender como os dividendos influenciam na precificação de ativos pode ser crucial para manter sua carteira afinada, assim como deve ser uma orquestra sinfônica.

Para te ajudar nisso, traremos as principais estratégias de rebalanceamento e também algumas regrinhas de bolso que podem ser muito úteis. Afinal, investir não é um bicho de sete cabeças e, com o conhecimento certo, todos nós podemos ser maestros de nossas finanças.

Então, vamos começar?

Sobre o Renda Total

A carteira Renda Total é composta por uma variedade de ativos financeiros, que hoje se baseia em três grandes setores: ações, fundos de investimento imobiliário (FIIs) e títulos públicos. Esses ativos formam a espinha dorsal da carteira e são suplementados por investimentos internacionais e em crédito privado.

A alocação atual dos recursos na carteira de renda é estrategicamente diversificada para balancear o potencial de crescimento com dividendos, sem deixar de lado um olhar atento à sua volatilidade.

Assim, a carteira é composta por:

  • 30% em ações, que oferecem potencial de crescimento e rendimento de dividendos;
  • 40% em FIIs, que fornecem renda estável de aluguéis;
  • 15% em títulos públicos, que representam estabilidade e, em nossa seleção com juros, garantem rendimentos previsíveis semestrais;
  • 2,5% em ativos internacionais, que fornecem oportunidades de diversificação e descorrelação com ativos nacionais; e
  • 12,5% em crédito privado, que pode oferecer retornos mais altos do que os títulos públicos para compensar o risco adicional.

Em termos de desempenho, a carteira original da série Renda Total entregou 7,05% a.a. em dividendos nos últimos 12 meses, enquanto a alternativa, 8,29% a.a. Esse desempenho sólido reflete a força da estratégia de diversificação e o potencial de renda passiva fornecidos por este portfólio.

A estratégia por trás da carteira de renda é tríplice: gerar renda passiva, diversificar o risco e maximizar o retorno a médio e longo prazos. A geração de renda passiva é alcançada através de dividendos de ações e rendimentos de FIIs e títulos públicos.

Por sua vez, a diversificação de risco é obtida por meio de uma alocação equilibrada entre diferentes tipos de ativos e mercados. Já a maximização do retorno a médio e longo prazos é conseguida através de uma mistura de ativos de crescimento (como ações e crédito privado) e ativos de renda (como FIIs e títulos públicos).

Essa estratégia é relevante para os investidores porque oferece um equilíbrio entre renda, crescimento e proteção, tornando-a adequada para uma ampla gama de objetivos de investimento.

O que é rebalancear uma carteira?

Rebalancear uma carteira é o processo de reajustar a alocação de ativos para manter a proporção desejada de diferentes tipos de investimentos. Essa divisão é estabelecida de acordo com a estratégia de investimento do indivíduo ou da instituição, que normalmente leva em conta variáveis como objetivos de investimento, horizonte de tempo, tolerância ao risco, entre outros.

Por exemplo, se você decidiu que a alocação ideal para sua carteira é de 60% em ações, 30% em títulos e 10% em dinheiro, mas, devido ao bom desempenho dos ativos de renda variável, a participação destes subiu para 70%, precisaria vender algumas ações e comprar mais títulos ou aumentar sua posição em dinheiro para reequilibrar a carteira de volta à alocação desejada.

O rebalanceamento é considerado uma prática importante para o gerenciamento eficaz de riscos e a otimização dos retornos dos investimentos. Ao rebalancear, os investidores podem garantir que suas carteiras não se tornem excessivamente expostas a um tipo específico de ativo ou setor que tenha tido um bom desempenho recentemente, mas que possa ser mais arriscado a longo prazo. Além disso, pode permitir que aproveitem a volatilidade do mercado, comprando ativos que caíram de preço e vendendo aqueles que subiram, uma prática conhecida como "comprar na baixa e vender na alta".

No entanto, o rebalanceamento também apresenta desafios, uma vez que pode envolver custos de transação, incluindo impostos sobre ganhos de capital gerados pela venda de ativos. Além disso, tende-se a considerar difícil vender ativos que tiveram um bom desempenho recentemente, devido a um viés de comportamento conhecido como "viés de aversão à perda".

Finalmente, o rebalanceamento eficaz requer uma compreensão clara dos objetivos de investimento, do perfil de risco e do horizonte de tempo de quem investe, bem como uma avaliação contínua e detalhada da performance dos ativos da carteira.

Como os dividendos impactam a sua carteira?

Os pagamentos de dividendos podem impactar o equilíbrio de uma carteira de investimentos de várias maneiras.

Uma vez que um provento é pago, esse montante é transferido do valor do ativo para o caixa da pessoa. Isso pode causar oscilações no preço do papel ou título, pois alguns investidores podem optar por comprar ou vender os ativos antes ou após o depósito da remuneração.

Fonte: Spiti

Além disso, o preço do ativo pode ser ajustado para refletir a distribuição do dividendo. Ou seja, a realização do pagamento de dividendo reduz momentaneamente o valor da cotação.  Porém, é importante lembrar que houve a transferência de valor da cota para seu caixa. Sendo assim, é inteligente utilizar esse montante reinvestindo na estratégia da carteira – tema que abordarmos mais à frente.

Desse modo, o pagamento de dividendos pode afetar a distribuição percentual dos ativos em uma carteira de várias maneiras. Como diferentes investimentos possuem cronogramas distintos para pagamento de proventos – com títulos públicos pagando semestralmente, FIIs mensalmente e ações tipicamente remunerando de forma esporádica –, isso pode impactar a valorização do ativo ao longo do tempo.

Por sua vez, isso pode alterar a proporção que cada investimento representa na carteira. Além disso, o valor de um ativo pode aumentar ou diminuir significativamente em relação a outras aplicações, mecanismo conhecido como ganho de capital, o que sugere que pode ser o momento de ajustar a alocação desse ativo.

Para manter a carteira alinhada aos objetivos de quem investe diante dos pagamentos de dividendos ou ganhos de capital, várias medidas podem ser tomadas. Primeiro, é importante monitorar de perto a porcentagem que cada ativo representa na carteira ao longo de cada trimestre.

Se um ativo estiver perdendo relevância em relação a outros, isso provavelmente indica que é hora de aumentar a participação nesse ativo, que pode ser feito por meio de novos investimentos ou reinvestindo os dividendos recebidos.

Além disso, os proventos recebidos podem ser usados para comprar mais de um ativo que tenha caído em valor, efetivamente “comprando na baixa”. Por outro lado, se um ativo aumentou significativamente em valor e agora representa uma porção maior da carteira do que o desejado, os dividendos podem ser usados para comprar mais de outros, ajudando a “vender na alta”.

Ao ajustar a alocação de ativos dessa maneira, os investidores oferecem garantias de que sua carteira permaneça alinhada com seus objetivos de investimento e tolerância ao risco.

E com qual frequência devemos fazer isso?

A frequência recomendada para o ajuste percentual de uma carteira pode variar de acordo com diversos fatores, incluindo o cronograma de pagamento de dividendos dos ativos na carteira. Em geral, sugerimos um rebalanceamento a cada três meses ou mais, a depender das circunstâncias individuais de cada pessoa.

Realizar o rebalanceamento com frequências diferentes apresenta vantagens e desvantagens. Um ajuste mais frequente, como mensal, permite que você corrija rapidamente sua carteira em resposta a mudanças no mercado. No entanto, isso também pode resultar em excesso de transações, o que pode ser custoso em relação a impostos e potencialmente prejudicar a performance geral da carteira.

"Como assim, gente?". A explicação é simples:

Ajustes constantes podem levar a decisões precipitadas, como vender um ativo que aumentou significativamente de valor devido a um resultado positivo, apenas para vê-lo continuar subindo.

Por outro lado, um rebalanceamento menos frequente, como trimestral, pode permitir que os ativos tenham tempo para se recuperar de flutuações temporárias de preço, além de resultar em menos transações e custos associados. No entanto, ajustes anuais ou até mais demorados podem gerar períodos em que a carteira esteja desalinhada com os seus objetivos.

Ao determinar a frequência ideal de rebalanceamento, vários fatores devem ser considerados. O tamanho da carteira é um fator-chave. Para carteiras maiores, que recebem mais dividendos, pode ser mais fácil comprar outras cotas de ativos para ajustar as alocações.

Já  para carteiras menores, pode ser necessário mais tempo para acumular proventos suficientes a fim de comprar outros ativos. Nesse caso, os dividendos podem ser alocados em uma reserva de valor até que seja possível fazer a aquisição.

Outros fatores a considerar incluem a volatilidade do mercado, o cronograma de pagamento de dividendos dos ativos na carteira e a estratégia de investimento de cada pessoa.

Quais as formas possíveis de rebalancear?

Duas considerações são cruciais no processo de rebalanceamento: a determinação da proporção do ativo na carteira e a fonte dos recursos que serão utilizados para o rebalanceamento. Nesse contexto, podemos destacar três estratégias fundamentais:

  1. Alocação de novos recursos: aqui, o foco é direcionar novos fundos que você deseja adicionar à carteira.
  2. Alocação utilizando dividendos recebidos: no caso, os dividendos advindos dos ativos já presentes na carteira são reinvestidos.
  3. Venda de posições existentes: essa estratégia envolve a venda de posições que representam uma proporção elevada na carteira, para investir em outras com uma fatia menor no portfólio.

Sobre a origem e o destino dos recursos

Fonte: Spiti

Em geral, uma estratégia pragmática envolve a realização do ajuste em intervalos trimestrais. Esse método é eficaz para manter uma alocação de ativos consistente, apesar das oscilações do mercado. Contudo, é essencial frisar que o rebalanceamento temporal exige um compromisso de supervisão e ajuste da carteira em intervalos regulares.

A maior vantagem dessa estratégia reside na sua capacidade de mitigar riscos e potencializar o retorno ajustado ao risco ao longo do tempo. Isso se dá porque o rebalanceamento periódico assegura que a carteira se mantenha alinhada com o perfil de risco e os objetivos de investimento.

Ademais, o rebalanceamento pode incentivar a disciplina de investimento, estimulando que você tome decisões pautadas em critérios objetivos, ao invés de reações emocionais às variações do mercado.

A principal desvantagem de ficar ajustando a carteira em períodos mais curtos é que esse hábito pode gerar custos de transação e possíveis implicações fiscais. Por exemplo, a venda de ativos que valorizaram significativamente desde a aquisição pode levar a ganhos de capital, que podem estar sujeitos à tributação.

É fundamental que você compreenda que, embora nós da Spiti possamos auxiliar fornecendo informações sobre a performance dos ativos da carteira, você deve monitorar atentamente qual percentual a carteira Renda Total representa em relação ao seu patrimônio total. Isso auxiliará a garantir que está alcançando seus objetivos financeiros e de investimento de acordo com seu perfil de investimento ideal.

Vale ressaltar que a carteira tem uma volatilidade anual média de 6%, podendo apresentar moderada variação ao longo do ano. Essa variação pode ser ajustada de acordo com a alocação de patrimônio. Por exemplo, se você aloca 5% do seu patrimônio em uma carteira que apresenta, em um dado período, uma variação de 10% (positiva ou negativa), a variação do seu patrimônio total será de 0,5% (5%*10%).

No entanto, se você tem 50% do patrimônio alocado na carteira, a oscilação total será de 5% (50%*10%). Portanto, a quantidade em que você aloca influencia diretamente nas oscilações totais que você perceberá em seus investimentos.

Considerações fiscais

Como vimos, o aspecto fiscal é um componente importante ao se considerar o rebalanceamento de uma carteira de investimentos.

Por isso, uma prática recomendada é a utilização de dinheiro novo, sempre que possível, para o rebalanceamento da carteira. Quando o ajuste exigir a alienação de ativos, é recomendável vender aqueles que estão com desvalorização.

Isso porque, no Brasil, algumas perdas em vendas de ativos financeiros podem ser usadas para abater o imposto devido sobre os ganhos de capital de outros investimentos, como mostramos no relatório: Darf: um guia para emitir o documento e pagar os impostos gerados em operações com ações e FIIs.  Assim, vender ativos em perda pode ajudar a minimizar a carga tributária.

Com base na nossa experiência, recomendamos o uso de dinheiro novo. Isso não só minimiza o trabalho operacional associado à venda de ativos, mas também otimiza as implicações fiscais. Ele pode vir de várias fontes, incluindo o próprio rendimento do trabalho e os dividendos recebidos.

Conclusão

O rebalanceamento da carteira é uma prática essencial, que permite a manutenção dos ativos na carteira para manter o perfil de risco desejado. Como evidenciado, o Renda Total, devido à sua diversificação e estratégia focada no longo prazo, apresenta um desempenho sólido, gerando uma renda passiva relevante e constante crescimento.

A prática de ajustar a carteira requer uma revisão periódica, com uma recomendação geral de ser realizada trimestralmente. Isso permite que os ativos tenham tempo para se recuperar de flutuações de preço temporárias e tende a resultar em menos transações e custos associados.

No entanto, a frequência ideal de rebalanceamento depende de uma série de fatores, incluindo o tamanho da carteira, a volatilidade do mercado e a estratégia de investimento de cada pessoa, que pode ser mais assídua.

Importante também considerar as implicações fiscais e os custos de transação. Sempre que possível, o uso de dinheiro novo ou dividendos recebidos para o rebalanceamento é recomendado para minimizar esses custos operacionais e tributários. Além disso, em casos que a venda de ativos é necessária, fazer isso com perda pode ajudar a minimizar a carga fiscal.

O rebalanceamento é uma ferramenta poderosa que, quando usada adequadamente, pode ajudar a manter o equilíbrio entre o retorno ajustado ao risco. Porém, requer compromisso e disciplina para garantir que a carteira permaneça alinhada.

Por fim, embora este relatório forneça uma visão geral e recomendações sobre o rebalanceamento da carteira Renda Total usando dividendos, esses conhecimentos podem ser usados em qualquer portfólio que tenha percentual definido.

Vale lembrar que o ajuste percentual é apenas uma peça do quebra-cabeça dos investimentos. Uma estratégia de investimento bem-sucedida requer uma abordagem que contemple mais vértices e atenção contínua aos detalhes, principalmente no que tange à seleção dos ativos, que é onde entra a nossa expertise.

Nossa função aqui é de sempre fornecer uma orientação informada e estratégica, analisando o mercado, identificando oportunidades e apresentando opções com base em parâmetros da carteira. Contudo, a responsabilidade final pela tomada de decisão, ajuste e monitoramento da carteira recai sobre você, que deve determinar o percentual total que a carteira deve representar sobre seu patrimônio, bem como seus objetivos de investimento e situação financeira individual.

Assim, a harmonia entre essas duas funções – aconselhamento e decisão – é crucial para obter sucesso em qualquer estratégia de investimento, seja aqui na série Renda Total, seja em qualquer outra carteira da Spiti.

Portanto, é essencial que você mantenha uma abordagem proativa e engajada em relação à gestão de sua carteira e converse com a gente, usando as recomendações como um guia, mas sempre mantendo o controle final.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.