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Update da gestão ativa internacional: como nossos fundos de ações estão posicionados

Escrito por Felipe Arrais em INTERNACIONAL

41 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  •  Atualização sobre os três fundos de gestão ativa internacional recomendados pela Finclass: Morgan Stanley Global Opportunity, Morgan Stanley Global Brands e Wellington Ventura, com perfis e estilos de gestão bastante distintos.

  • Discussão do contexto macro recente, marcado por tensão geopolítica no Oriente Médio, debate sobre o retorno do capex em inteligência artificial e uma rotação setorial que tirou força das ações de crescimento e levantou setores defensivos e cíclicos clássicos.

  • Análise da performance de cada estratégia nos últimos meses, com as principais contribuições positivas e negativas no nível de empresa, e o porquê das diferentes histórias entre os três fundos.

  • Posicionamento atual e perspectivas de cada time de gestão olhando adiante, com leitura das nossas convicções sobre cada produto dentro da carteira Finclass.

  • Retirada da recomendação do fundo Fundsmith por critérios qualitativos relacionados à falta de acesso a informações essenciais.

Faz alguns meses que não trazemos uma atualização específica sobre os fundos de gestão ativa internacional, e é claro que o tema começa a ser cada vez mais pedido em nossas Lives e na comunidade Circle. Ainda mais em um contexto macroeconômico conturbado, se faz ainda mais necessária uma atualização detalhada para que reforcemos, ou não, nossas convicções.

O início de 2026 quebrou um pouco a inércia dos últimos anos no mercado acionário global. Depois de um ciclo prolongado de liderança das grandes empresas de tecnologia americanas, o primeiro trimestre trouxe uma rotação setorial relevante: energia, materiais e o setor de utilidades públicas (utilities) tomaram a dianteira, enquanto consumo discricionário, comunicação e tecnologia da informação ficaram para trás.

Três fatores explicam boa parte do movimento. O primeiro foi a escalada geopolítica no Oriente Médio, que pressionou o preço da energia e reacendeu o debate sobre inflação. O segundo foi a renovada discussão sobre o retorno do capex bilionário em inteligência artificial, com os hyperscalers planejando algo próximo de US$ 575 bilhões em investimentos em 2026, expansão estimada em aproximadamente 50% sobre 2025, e o mercado começando a questionar quando essa conta vira receita de fato. O terceiro foi a estreita liderança de mercado, com poucos nomes carregando boa parte do retorno dos índices, criando concentração e fragilidade ao mesmo tempo.

Nesse pano de fundo, fundos de gestão ativa, que podem se afastar bastante da composição do índice de referência, naturalmente apresentam performance diferente do benchmark, para o bem ou para o mal.

Ao longo deste relatório, vamos relembrar as principais características de cada um dos três fundos, discutir o que entregaram nos últimos meses, conectar essa performance com o cenário macro e olhar para o posicionamento atual de cada estratégia. A intenção é deixar você na mesma página que nosso time de análise, com uma visão clara sobre o que está dando certo, o que está dando errado e o que esperamos daqui em diante.

Vale mencionar desde agora que aproveitaremos este relatório para efetivar a retirada da recomendação do fundo Fundsmith, por critérios qualitativos, conforme explicaremos na seção específica sobre o tema.

Uma ótima leitura!

Os fundos em detalhes

Antes de partirmos para cada fundo, vale relembrar que no momento apenas o fundo Morgan Stanley Global Opportunity está incluído em nossa carteira “oficial” deixando os outros fundos como alternativas para serem escolhidas “a gosto do freguês”.

Para quem investe direto no exterior, recomendamos a aquisição das estratégias originais sempre tentando reduzir custos operacionais (remessa cambial, corretagem, etc.). Para quem investe pelo Brasil, recomendamos os feeders com exposição cambial dolarizada, ou seja, que não façam hedge da variação do dólar, mantendo a função de diversificação cambial que toda a fatia internacional cumpre na carteira.

O Morgan Stanley Global Opportunity é uma estratégia de alta convicção e maior beta, focada em crescimento e disrupção. O Morgan Stanley Global Brands tende a ser mais defensiva, concentrada em marcas globais com poder de precificação. E o Wellington Ventura busca um perfil de qualidade com crescimento moderado, com um pouco mais de equilíbrio entre os dois extremos. Em conjunto, oferecem fontes distintas de retorno dentro do tema global.

Como já mencionamos na abertura, o fundo Fundsmith não mais fará parte de nossas recomendações a partir de hoje e deixaremos uma seção específica para tratar do assunto ao final deste relatório.

Morgan Stanley Global Opportunity

Características do fundo e estilo de gestão

O Morgan Stanley Global Opportunity é uma das principais estratégias de ações globais da gestora, capitaneada por Kristian Heugh desde 2006. Heugh começou no Morgan Stanley em 2001 e acumula 25 anos de experiência. À frente do time, ele lidera um grupo de 23 profissionais espalhados pelos Estados Unidos, Singapura, Hong Kong, Reino Unido, Japão, Canadá e Suíça, que administra US$ 37,9 bilhões em estratégias correlatas.

A filosofia da estratégia é direta no enunciado: investir em empresas de alta qualidade e que estejam negociando com desconto relevante em relação ao seu valor intrínseco. O time procura pagar por volta de 80% (ou menos) do valor que estima para cada negócio, em uma janela de cinco a dez anos, e busca um portfólio bastante concentrado nas melhores ideias.

Algumas características marcantes do fundo, conforme dados referentes ao fechamento de março de 2026, ajudam a entender o tipo de carteira que o investidor compra ao alocar nessa estratégia:

•       36 empresas em carteira, contra mais de 2.500 no índice de referência. É uma carteira muito mais concentrada do que a média de fundos globais.

•       Active Share de 90%, ou seja, a carteira é quase totalmente diferente do MSCI ACWI em composição.

•       Beta de 1,31 em relação ao benchmark nos últimos três anos, indicando uma estratégia que tende a oscilar mais do que o mercado, para cima e para baixo.

•       Erro de tracking de 11,18% e R² de 0,68. Em linguagem simples, o fundo se desconecta do índice com frequência e isso é uma escolha deliberada.

•       Posição líquida em caixa de +8% das empresas em carteira, contra um endividamento líquido de -32% do benchmark. As empresas escolhidas são, em média, financeiramente mais sólidas que a média do mercado.

•       ROIC esperado de 145,2% para os próximos doze meses, contra 25,6% do índice, e crescimento estimado de vendas de 12,9% ao ano entre 2025 e 2028, contra 5,9% do benchmark.

O fundo usa o MSCI All Country World Index (ACWI) como referência, mas a gestão deixa claro em todos os materiais que a composição da carteira não é restringida pela composição do índice. É uma estratégia benchmark agnostic, que monta a carteira a partir das melhores ideias do time sem muito apego ao que o índice oferece como exposição. Esse perfil é importante de internalizar antes da próxima seção, porque ajuda a entender por que a performance se desvia tanto do MSCI ACWI em diferentes janelas.

Performance recente

Aqui é onde a conversa fica interessante. O fundo entrou em 2026 vindo de um ano de 2025 já difícil em termos relativos, e o primeiro trimestre amplificou esse desconforto. Veja o quadro mês a mês:

Performance Class Z (USD, líquida de taxas) vs MSCI ACWI, mês a mês em 2026

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management e Bloomberg

A leitura do quadro acima diz três coisas ao mesmo tempo. A primeira é que o primeiro trimestre foi de fato ruim, com o fundo entregando -13,38% contra -3,20% do MSCI ACWI. A segunda é que abril já indicou retomada relevante, com 9,39% de retorno do fundo praticamente no mesmo passo da forte recuperação do índice (+10,17%). A terceira, e mais importante para quem acompanha o fundo desconfortavelmente em 2026, é que maio confirmou a inflexão: o fundo subiu cerca de 9,7% no mês contra 5,2% do MSCI ACWI, com mais de 4 pontos percentuais de outperformance em um único mês. Junho, ainda em curso, reforça essa direção: até o fechamento do dia 19, o fundo acumulava +2,60% no mês contra -0,33% do MSCI ACWI, com o índice já em terreno levemente negativo enquanto a carteira segue capturando o movimento de recuperação. Em USD, a defasagem no ano (YTD) recuou de cerca de -10 p.p. ao final de março para pouco mais de -8 p.p. ao final de maio, e para cerca de -5 p.p. com os dados parciais de junho. A defasagem segue existindo, mas a direção do filme nos últimos meses é exatamente a esperada de uma estratégia desse perfil quando o vento volta a soprar a favor.

Fonte: Morgan Stanley Investment Management e Bloomberg. Dados em USD, líquidos de taxas, Class Z. Junho calculado a partir das cotas diárias até 19/06/2026.

O que ajudou e o que atrapalhou

A explicação central para a defasagem em relação ao benchmark no primeiro trimestre está na rotação setorial. Ambientes em que energia, utilities e materiais lideram, e nos quais consumo discricionário, comunicação, financeiras e tecnologia ficam para trás, são historicamente desafiadores para a estratégia, justamente porque o portfólio é quase ausente nos primeiros e fortemente exposto aos segundos. A boa notícia é que abril e maio mostraram a outra face dessa mesma característica: nos dois meses combinados, a estratégia se beneficiou da volta dos vetores de crescimento e da retomada do apetite por risco, com destaque para os nomes de semicondutores e infraestrutura de inteligência artificial.

No nível de seleção de empresas, os principais detratores e contribuidores do primeiro trimestre foram:

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, atribuição do primeiro trimestre de 2026.

Com a divulgação do Monthly Commentary de 31 de maio pelo Morgan Stanley, é possível agora olhar a atribuição em uma janela mais ampla, no acumulado do ano. A lista oficial de top contribuidores e detratores YTD até maio confirma a virada que se materializou em abril e maio, com nomes ligados à cadeia de semicondutores e infraestrutura de IA puxando o relativo:

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, Monthly Commentary de 31/05/2026 (Global Opportunity Fund).

A comparação entre as duas janelas é eloquente. Saem da lista de detratores nomes que tinham pesado fortemente no primeiro trimestre, como Meta Platforms, e entra o Coupang, plataforma coreana de e-commerce que sofreu junto com o restante do setor de consumo discricionário ao longo do ano. Do lado positivo, três novos nomes ganham relevância na visão anual: Samsung Electronics e CrowdStrike Holdings, que se beneficiaram diretamente do rali em tecnologia, e SK Hynix, que sobe ao topo da lista de contribuidores YTD após um maio particularmente forte.

Vale destacar algumas histórias específicas, que ajudam a entender o que realmente aconteceu:

DoorDash foi o maior detrator do trimestre, com as ações pressionadas pela percepção de que o aumento de investimento em sua nova plataforma de tecnologia comprimiria margens no curto prazo. O time argumenta que esses investimentos são necessários para sustentar a competitividade da plataforma adiante e que a tese de longo prazo continua intacta, baseada no efeito de rede, no modelo de assinatura DashPass e na expansão para verticais como mercado e farmácia.

Hermès caiu junto com o setor europeu de luxo em meio a renovadas preocupações com o consumidor chinês e o impacto do conflito no Oriente Médio sobre o consumo ligado a viagens. O time mantém a tese baseada no poder de precificação histórico da marca, na escassez controlada de oferta e na governança familiar.

HDFC Bank sofreu com a renúncia do presidente do conselho e com a pressão geral sobre o valuation das ações indianas. A leitura do time é de que o balanço do banco permanece sólido e que a história estrutural de crescimento da economia indiana segue válida.

Meta Platforms e Uber recuaram dentro do movimento mais amplo de aversão a nomes de consumo discricionário e tecnologia, sem mudança de tese fundamental por parte da gestão.

Do lado positivo, o destaque ficou para ASML, que reagiu ao realinhamento das expectativas de receita para 2026, à demanda forte por capacidade de ponta na indústria de semicondutores e ao avanço da tecnologia de litografia High NA EUV. TSMC também subiu com a expectativa de aumentos de preço em nós avançados e ampliação da capacidade Chip-on-Wafer-on-Substrate, ou CoWoS (tecnologia de empacotamento de semicondutores desenvolvida pela empresa) para atender à demanda por chips de GPU e ASICs ligados à inteligência artificial.

Em abril, a comunicação mensal divulgada pela gestora trouxe um quadro diferente do trimestre. Os principais contribuidores foram nomes ligados à cadeia de inteligência artificial: Taiwan Semiconductor (TSMC), SK Hynix, ASML, Keyence (automação industrial e visão computacional, no Japão) e Schneider Electric (gestão de energia, com forte exposição a data centers). Do outro lado, ainda restaram detratores importantes no mês: DoorDash, Spotify, ServiceNow, Hermès e HDFC Bank seguiram pressionados, refletindo a perda relativa do consumo discricionário e o ruído específico das ações indianas. No agregado, o fundo subiu 9,39% no mês, ligeiramente abaixo dos 10,17% do MSCI ACWI, em uma alta liderada por setores onde o portfólio é estruturalmente menos exposto (industriais, energia, materiais, utilidades).

Em maio, já com a comunicação oficial da gestora divulgada, a leitura fica clara. O fundo subiu 9,72% no mês contra 5,16% do MSCI ACWI, com mais de 4 pontos percentuais de outperformance, exatamente o tipo de mês esperado dada a combinação entre a forte exposição do portfólio à cadeia de inteligência artificial e a aceleração do rali em semicondutores ao longo do mês. A própria gestora destaca, na visão YTD, nomes como SK Hynix, TSMC, ASML, Samsung Electronics e CrowdStrike Holdings entre os principais contribuidores do ano, uma lista que reflete bem o eixo de tecnologia e infraestrutura de IA que puxou o relativo. O PHLX Semiconductor Index (SOX), um dos benchmarks mais utilizados para representar a performance do segmento de semicondutores, atingiu múltiplas máximas históricas durante maio, com fluxo concentrado nos nomes que aparecem entre os top contribuidores do fundo no mês anterior (TSMC, SK Hynix, ASML). A divulgação dos resultados do primeiro trimestre fiscal de 2027 da NVIDIA, com receita 85% acima do ano anterior, e a leitura mais ampla de que o capex em infraestrutura de IA dos hyperscalers seguia em ritmo forte, ajudaram a impulsionar o segmento.

Pelo lado de consumo discricionário, o segundo maior overweight setorial do fundo, vimos uma rotação favorável: nomes como Meta, Uber e MercadoLibre (em peso relevante na carteira ao final de abril) tendem a se beneficiar de ambientes em que a aversão ao risco recua. Em paralelo, setores defensivos como saúde e consumo básico, nos quais o fundo é fortemente subalocado em relação ao índice, continuaram em underperformance relativa, o que tipicamente ajuda o fundo na comparação com o índice. A combinação dessas três frentes (semicondutores no topo, consumo discricionário se recuperando, defensivos para trás) é coerente com a magnitude da outperformance de maio.

O recado central é que o portfólio se comportou nos últimos dois meses exatamente como deveria dado seu perfil: caiu mais do que o índice em uma rotação adversa no primeiro trimestre, e subiu mais do que o índice quando o vento voltou a soprar a favor das estratégias de crescimento e inteligência artificial. Isso não anula a defasagem acumulada nem garante retornos futuros, mas reforça que a tese estrutural por trás do fundo continua intacta.

Como interpretar essa volatilidade

Os números relativos de 2025 e do início de 2026 não são confortáveis. Em 2025, o fundo entregou 12,16% em USD contra 22,34% do MSCI ACWI. Em 2026 até maio, a defasagem estava em pouco mais de 8 pontos percentuais (+3,97% do fundo contra +12,15% do índice), depois de ter chegado a cerca de 10 pontos no fim do primeiro trimestre. Antes disso, em 2022, o fundo caiu 41,89% no ano contra 18,36% do índice.

Por outro lado, em 2020 e em 2023, anos de mercado favorável a ativos de crescimento, o fundo entregou respectivamente 55,47% e 51,72%, contra 16,25% e 22,20% do índice. Essa é exatamente a assinatura de uma estratégia concentrada em empresas de qualidade com perfil de crescimento e alta convicção: muito boa quando o ambiente acolhe esse estilo, e penalizada com força nos momentos em que o mercado prefere setores tradicionais.

A própria gestora atribui a defasagem YTD a quatro fontes principais: seleção de empresas em consumo discricionário, comunicação, industriais e financeiras, somada à alocação overweight em consumo discricionário. Do lado contrário, a seleção em tecnologia da informação, o underweight em saúde, financeiras e consumo básico, e o overweight em industriais contribuíram positivamente. É a leitura oficial do que já estava implícito nos números que mostramos antes: a defasagem não veio de uma deterioração do processo do gestor, mas do tipo de rotação setorial que historicamente penaliza esse estilo de gestão.

O próprio time da Morgan Stanley publicou no relatório de abril uma tabela útil para essa leitura. A chamada Hit Rate Table mostra que, desde a criação do fundo, em janelas de 12 meses de underperformance, a estratégia entregou em média 8,4% de alfa nos 12 meses seguintes e 20,8% de alfa acumulado nos três anos seguintes (líquidos de taxas, Class Z em USD). Em janelas de cinco anos após períodos de underperformance, a taxa de acerto chegou a 89%.

Com os dados expostos na tabela queremos apenas reconhecer o fato de que esse tipo de estratégia, com beta acima de 1, alta concentração e exposição grande a ativos sensíveis ao crescimento, costuma ter dependência de caminho (path dependence) pronunciada. Quem investe nela precisa estar disposto a conviver com janelas difíceis em troca da chance de janelas excepcionais.

Para o investidor brasileiro, vale ainda uma observação que sempre reforçamos por aqui: na perspectiva em reais, a volatilidade dos ativos internacionais ganha um componente adicional da variação cambial. Em momentos como o atual, em que o real costuma se valorizar quando o apetite global por risco volta, a recuperação do fundo em reais pode ser mais modesta do que a observada em dólares.

Posicionamento atual e outlook

Apesar do trimestre difícil, o time não fez mudanças estruturais na carteira. Pelo contrário, reforçou que enxerga o atual valuation do portfólio como atrativo, em torno de 7% de free cash flow yield sobre estimativas para 2028 e com previsão de crescimento de receita de 13% ao ano nos próximos três anos, contra 8% projetados para o MSCI ACWI. A consistência de posicionamento se mostrou correta nos dois meses seguintes: justamente os nomes em que a gestão manteve convicção (TSMC, SK Hynix, ASML, Keyence, Schneider Electric, entre outros) lideraram a contribuição em abril, e a estratégia se beneficiou de forma desproporcional do rali em semicondutores em maio.

A maneira como o time enquadra hoje a alocação é dividida em três grandes blocos de tendências seculares, conforme apresentado na comunicação de portfolio positioning de abril:

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, abril de 2026.

As dez maiores posições do fundo, que somam mais da metade da carteira, refletem esse enquadramento:

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, FactSet. Dados em 31 de maio de 2026.

Em termos setoriais, com dados de 31 de maio de 2026, o fundo está mais pesado em tecnologia da informação (34,15% contra 32,21% do índice), consumo discricionário (24,04% contra apenas 9,12%) e serviços de comunicação (17,23% contra 8,34%). Em financeiras, o fundo aparece levemente abaixo do índice (12,82% contra 15,63%), e em industriais praticamente em linha (10,40% contra 10,72%). O ponto mais marcante segue sendo a ausência quase total nos setores defensivos e de recursos: o fundo não tem exposição a saúde, energia, materiais, utilidades públicas, imóveis nem consumo básico, justamente os setores que lideraram o mercado no primeiro trimestre.

Em termos geográficos, com dados de 31 de maio de 2026, chama atenção o quanto a carteira se afasta do índice por domicílio das empresas. A América do Norte responde por 37,99% do fundo, contra 66,46% do MSCI ACWI, um subpeso de quase 30 pontos percentuais. Em contrapartida, o fundo carrega exposição muito superior à do índice na região do Pacífico (28,72% contra 9,73%), na Europa da zona do euro (14,72% contra 7,51%), na Europa fora da zona do euro (9,20% contra 6,31%) e no subcontinente indiano (4,24% contra 1,34%). O Japão é um dos poucos pontos de subpeso fora dos Estados Unidos (1,93% contra 5,00%). Vale a ressalva de sempre: o domicílio da listagem não conta toda a história, porque boa parte dessas empresas listadas fora dos Estados Unidos tem receitas distribuídas globalmente, inclusive no próprio mercado americano. Ainda assim, a leitura por domicílio deixa claro que o fundo busca crescimento estrutural onde os múltiplos são mais atrativos, em vez de concentrar na megacapitalização americana que domina o índice.

Como interpretamos o fundo daqui em diante

Nossa leitura sobre o Morgan Stanley Global Opportunity continua a mesma. É uma estratégia que entrega ao assinante uma exposição diferenciada em relação aos ETFs passivos, com seleção criteriosa de empresas com retorno sobre capital muito acima da média e crescimento estrutural acima do mercado, em troca de uma volatilidade relativa também maior.

O posicionamento atual nos três blocos temáticos (Digitalização, Inteligência e Consumo) parece coerente com o tipo de fundo que estamos comprando: ele aposta nos vetores de transformação dos próximos cinco a dez anos, e não nos setores que estão liderando o índice no momento específico em que estamos. Em períodos como o final do primeiro trimestre de 2026, isso machuca a performance relativa. Em períodos como o da década passada, isso constrói muito patrimônio.

Por isso, mantemos o fundo como uma das opções recomendadas para a fatia de gestão ativa internacional.

Morgan Stanley Global Brands

Características do fundo e estilo de gestão

O Morgan Stanley Global Brands é uma das estratégias mais antigas e tradicionais da gestora em ações globais, lançada em 30 de outubro de 2000 e administrada pelo International Equity Team da casa, sediado em Londres. É uma estratégia que carrega 25 anos de histórico e tem como benchmark de referência o MSCI World Net Index, que reúne empresas de países desenvolvidos.

Diferentemente do Global Opportunity, cuja filosofia se apoia em comprar empresas de alta qualidade com desconto relevante sobre o valor intrínseco e tolera grande dispersão geográfica e setorial, o Global Brands tem um conceito mais específico de qualidade. O time investe em marcas globais consolidadas, com poder de precificação sustentado por intangíveis duráveis como propriedade intelectual, redes proprietárias de dados, escala em distribuição e relações profundamente enraizadas com clientes. São, na linguagem do time, capital-light compounders: empresas com baixa intensidade de capital, margens estruturalmente altas e capacidade de reinvestir caixa a retornos atrativos ao longo do ciclo.

Para entender o tipo de carteira que o investidor adquire ao alocar nessa estratégia, vale olhar para o perfil de qualidade do portfólio em comparação ao MSCI World, com dados de 30 de abril de 2026:

Indicadores de qualidade: Global Brands vs MSCI World

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, FactSet, Worldscope, MSCI. Dados em 30 de abril de 2026. ROOCE = retorno sobre capital operacional empregado.

Lendo a tabela, fica nítido o tipo de empresa que o time quer ter: retorno sobre capital operacional quase três vezes superior ao do índice, margens brutas cerca de 1,7 vez maiores que as do mercado, balanços menos alavancados e, sobretudo, muito mais estabilidade de margem ao longo do tempo e menor volatilidade de preço. Esses dois últimos itens são os que tradicionalmente fazem o fundo se destacar em momentos de stress de mercado, como veremos adiante.

Em termos de concentração, o portfólio segue o estilo da casa: posições de alta convicção em torno de cerca de trinta empresas, com baixa rotatividade e mandato ativamente afastado da composição do benchmark.

Performance recente

Se a história do Global Opportunity nos últimos meses foi de uma estratégia de crescimento penalizada pela rotação setorial, a do Global Brands é diferente em natureza, mas também desconfortável em magnitude. O fundo veio de um 2025 também extremamente difícil em termos relativos, com 0,16% em USD contra 21,09% do MSCI World, e o primeiro trimestre de 2026 amplificou a defasagem.

Performance Class I (USD, líquida de taxas) vs MSCI World Net Index

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, MSIM, FactSet. Dados em USD, líquidos de taxas, Class I. Performance passada não garante resultados futuros.

Há dois ângulos para ler esses números. Em magnitude, o primeiro trimestre foi muito ruim em termos relativos, e os meses seguintes não trouxeram alívio. Em abril o fundo subiu 5,30% contra 9,59% do índice, e em maio recuou 0,75% enquanto o índice avançou 4,55%, de modo que a defasagem do ano só aumentou. Aqui está o contraste mais importante com o Global Opportunity: enquanto aquele recuperou boa parte do terreno relativo em abril e maio, o Global Brands seguiu na direção oposta, fechando maio com YTD de -9,11% contra +10,49% do índice, uma defasagem de quase 20 pontos percentuais. Em natureza, é uma história diferente da do Global Opportunity, embora os dois fundos venham sofrendo com o mesmo macrotema de fundo. No Global Brands, dois fatores específicos estão por trás da defasagem.

O primeiro é a derating contínua das empresas de software e dados, núcleo histórico do portfólio, em meio à intensificação dos temores de disrupção por inteligência artificial. O segundo, e talvez mais surpreendente, é que o portfólio ainda não exibiu sua defensividade típica diante da crise atual, justamente porque a crise não tem se comportado como um susto clássico de crescimento. O choque na verdade veio do petróleo, e em ambientes assim os setores defensivos costumam sofrer junto com a inflação esperada, em vez de proteger.

Para se ter uma ideia, em março de 2026, energia foi o único setor positivo no mês, subindo 12% em dólares, enquanto bens de consumo defensivos e saúde, setores tradicionalmente refugiados em momentos de stress, recuaram 9% e 8%, respectivamente. Essa foi, segundo o próprio time da Morgan Stanley, a pior performance relativa do setor de Consumer Staples (consumo essencial) entre os 32 meses deste século em que o MSCI World caiu mais de 5%.

O que ajudou e o que atrapalhou

No nível de seleção de empresas, a atribuição do trimestre conta uma história bem ilustrativa do que vem acontecendo:

Contribuidores e detratores (1T 2026)

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, Global Brands Quarterly Commentary, 1T 2026.

Com a divulgação do Monthly Commentary de 31 de maio, a atribuição do mês mostra uma virada de composição em relação ao trimestre. Pela primeira vez em meses, nomes de tecnologia da informação lideraram as contribuições, com TSMC e Microsoft seguindo fortes após os resultados da temporada de abril, e até a SAP voltando ao terreno positivo. Do lado negativo, o peso ficou em nomes de saúde e consumo discricionário:

Contribuidores e detratores (maio/26)

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, Global Brands Monthly Commentary, 31 de maio de 2026.

Algumas histórias específicas merecem atenção, por concentrarem o peso do trimestre:

SAP foi o maior detrator do trimestre, com forte derating ligado aos temores de disrupção por inteligência artificial sobre o segmento de software e dados. O receio principal é que agentes de IA construídos por concorrentes possam deslocar a SAP na camada de orquestração de processos, ameaçando seu fosso competitivo e seu poder de precificação no longo prazo. O time reconheceu que a visibilidade dos lucros para além do horizonte da migração para nuvem ficou mais limitada e reduziu a posição para refletir essas dinâmicas competitivas em evolução.

Microsoft foi o segundo maior detrator do trimestre, pressionada por três frentes: o crescimento do Azure de 38% no segundo trimestre fiscal de 2026 ficou ligeiramente abaixo da expectativa de 39%, em razão de restrições temporárias de oferta; o nível de capex em infraestrutura de IA subiu de forma significativa; e o avanço rápido da Anthropic começou a ser visto como uma ameaça competitiva ao Office. A posição também foi reduzida, com parte do capital realocada para Amazon, justamente para diversificar a exposição aos hyperscalers.

RELX e S&P Global sofreram preocupações semelhantes em torno das implicações de longo prazo da IA para o setor de information services. A leitura do time é que essas empresas dispõem de bases proprietárias de dados, ofertas integradas líderes de mercado e modelos de precificação baseados em valor (e não em assento), o que torna mais provável que a IA seja agregada às suas plataformas do que as substitua.

Visa foi penalizada em fevereiro por dois ruídos regulatórios: uma proposta de limite para juros de cartão de crédito nos Estados Unidos, depois abandonada, e manchetes negativas envolvendo o tema das stablecoins. Para o time, a Visa segue bem-posicionada para atuar como parceira no ecossistema de stablecoins, dada a amplitude da rede de aceitação e a maturidade de seus mecanismos de antifraude e arbitragem de disputas.

Do lado positivo, o destaque ficou para Netflix, uma das novas posições do trimestre. A empresa foi recompensada após a decisão estratégica de se retirar do lance bilionário pela Warner Bros. Discovery, recebendo uma multa contratual de US$ 2,8 bilhões e poupando o balanço de uma aquisição que o mercado considerava potencialmente destruidora de valor. Coca-Cola beneficiou-se de bons resultados de quarto trimestre, com crescimento amplo entre regiões. E CME Group, a bolsa de derivativos, capturou ganhos de volume de negociação em meio à volatilidade elevada.

O que está por trás do desconforto em relação à performance

Sendo extremamente transparentes e honestos, não estamos satisfeitos com a performance do fundo nos últimos anos.

Por mais que se entenda os motivos pelos quais a estratégia não teve sucesso, precisamos sempre comparar os investimentos que fazemos com o custo de oportunidade. Ficar atrás de um benchmark é normal, ainda mais se falando de mercados desenvolvidos em que a gestão ativa, em média, tem grande dificuldade de mostrar consistência. Mas o fato é que a diferença de retorno entre o fundo e o índice referência é cada vez maior.

A tabela abaixo, com os retornos anuais do fundo Class I em USD desde 2018, ajuda a colocar o momento atual em perspectiva.

Retornos anuais: Global Brands Class I (USD) vs MSCI World Net Index

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management. Dados em USD, líquidos de taxas, Class I. Performance passada não garante resultados futuros.

A leitura do quadro acima é a seguinte: o fundo tem histórico de proteção em mercados de queda (em 2018 superou o índice em 6,67 p.p., em 2022 em 0,76 p.p.), mas atrasa em períodos de alta liderada por nomes muito específicos do mercado, como os últimos dois anos liderados por uma minoria de mega caps ligadas à IA. O Global Brands, por construção, fica de fora dos vencedores do índice nesses momentos, o que necessariamente cria gap relativo.

A leitura mais relevante, porém, vem da decomposição do que está por trás da defasagem atual. O próprio time da gestora publicou uma análise mostrando que os lucros das empresas do portfólio continuam crescendo de forma consistente ao longo dos últimos meses, em ritmo mais robusto do que o do índice. O que se contraiu foi o múltiplo: o P/L de 12 meses do portfólio caiu de cerca de 25,5x em meados de 2025 para aproximadamente 21x agora.

Em outras palavras, a fraqueza recente reflete deratings de múltiplos, não pressão sobre os lucros. E, segundo a gestora, isso colocou o portfólio numa posição rara: pela primeira vez em mais de uma década, o conjunto de empresas que ele detém negocia com desconto de preço sobre fluxo de caixa livre em relação ao MSCI World (25,6x contra 26,8x), apesar de oferecer ROOCE quase três vezes maior, margens brutas cerca de 1,7 vez maiores e crescimento esperado de receita acima do índice, conforme vemos na figura abaixo:

Fonte: Morgan Stanley Investment Management

A figura acima compara em três blocos o portfólio do Global Brands com o MSCI World. O bloco da esquerda evidencia o salto de qualidade: ROOCE (retorno sobre o capital operacional empregado) de 69,6% contra 24,3% do índice (2,8 vezes maior), margem bruta de 58,3% contra 34,0% (1,7 vez maior), menor necessidade de CAPEX em relação às vendas e dívida líquida sobre EBITDA também inferior (1,3 vez contra 1,8).

O bloco do centro contém o ponto que vale destacar: apesar dessa qualidade muito superior, o múltiplo Preço/Fluxo de Caixa Livre da carteira (25,6 vezes) está praticamente em paridade com o do índice (26,8 vezes), uma situação atípica olhando para a história desse tipo de estratégia, que costumava negociar com prêmio relevante em relação ao mercado. No Preço/Lucro o quadro é um pouco diferente (21,3 vezes contra 19,1 do índice, com a carteira ligeiramente mais cara), mas, para empresas com pouca necessidade de capital e geração de caixa robusta, o múltiplo de fluxo de caixa livre tende a ser o referencial mais limpo.

O bloco da direita explica por que esse perfil de empresa costuma ser mais defensivo: estabilidade das margens em dez anos de 85,4% para a carteira contra 71,0% do MSCI World (as margens oscilam menos ao longo do ciclo) e volatilidade do preço também inferior (14,1% contra 16,5%). A leitura combinada dos três blocos é a tese central do fundo neste momento: pagar pelo MSCI World em termos de fluxo de caixa livre, mas levar para casa um conjunto de empresas com qualidade e resiliência historicamente muito superiores.

Não estamos trazendo essa observação como desculpa. O ponto é que, quando se compra esse tipo de estratégia, paga-se historicamente um prêmio em relação ao mercado pela qualidade superior e pela menor volatilidade. Quando o mercado precifica essas mesmas empresas com desconto, isso é, em termos históricos, uma anomalia que tende a se resolver de duas formas: ou as preocupações que motivaram a derating se confirmam e os lucros realmente desaceleram, ou os múltiplos se recompõem à medida que a percepção de risco se acomoda. A gestora se posiciona na segunda hipótese; o investidor que aloca no fundo, ao mantê-lo, está fazendo isso de forma implícita também.

Posicionamento atual e outlook

Mais importante do que olhar para o passado é entender o que o time está fazendo agora. Diante da dispersão elevada de retornos entre setores e nomes, a equipe foi bastante ativa nos primeiros meses de 2026, aproveitando as quedas em ações de qualidade para fazer entradas oportunísticas e ao mesmo tempo reduzindo exposições onde a faixa de cenários ficou mais ampla por causa da IA.

Principais movimentações do portfólio (janeiro a abril de 2026)

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Fonte: Morgan Stanley Investment Management, Global Brands Update, abril de 2026. Movimentações significativas consideram variações de peso de +/- 50 bps no período.

Algumas movimentações merecem destaque pelo que dizem sobre a evolução da carteira. A entrada em TSMC é uma maneira de capturar a infraestrutura de IA pela ponta menos vulnerável da cadeia: um gargalo estrutural na produção de chips avançados, com poder de precificação reforçado e ciclo de demanda longo. A entrada em Amazon reflete a leitura de que a economia do varejo melhorou de forma significativa após anos de superinvestimento, ao mesmo tempo em que o AWS segue bem-posicionado para a próxima fase da computação ligada à IA, com a vantagem adicional de servir de diversificação à exposição em hyperscalers.

A entrada em Hermès é provavelmente a mais emblemática do trimestre. Aproveitando uma rara correção nas ações da marca, o time iniciou posição em uma franquia de luxo francesa de qualidade verdadeiramente diferenciada: poder de precificação derivado da escassez controlada das linhas icônicas de couro, marca que se sustenta por reputação e patrimônio histórico em vez de campanhas de marketing intensivas (gasto em marketing de apenas 1,5% das vendas) e ROOCE em torno de 80%. É exatamente o tipo de empresa que o Global Brands procura: capital-light, com margens estruturalmente altas e crescimento composto resiliente ao longo do ciclo.

Do outro lado, as principais reduções e saídas têm uma lógica comum: ou se trata de nomes onde a faixa de cenários ficou demasiado ampla por causa da IA, como ADP, Broadridge e SAP, ou de posições onde o valuation tinha esticado o bastante para que a relação risco-retorno deixasse de fazer sentido, como Thermo Fisher e Procter & Gamble.

Em maio, o time manteve esse ritmo de ajuste fino. Entraram dois nomes novos. O primeiro foi a McKesson, a maior e, na leitura do time, a de maior qualidade entre as distribuidoras de medicamentos dos Estados Unidos. As três grandes distribuidoras funcionam como pedágios do sistema de saúde americano, controlando cerca de 95% do mercado, com barreiras de entrada altas vindas de escala, infraestrutura e relacionamento profundo com clientes. O time já tinha exposição ao setor via Cencora, e a queda das ações da McKesson abriu a oportunidade de adicionar a líder do segmento. O segundo foi a Schneider Electric, líder global em equipamentos elétricos e automação, com cerca de 30% das ordens ligadas a data centers, o que dá exposição estrutural à infraestrutura de IA por uma porta de valuation mais razoável do que a maioria dos nomes óbvios do tema.

Do lado das saídas, o fundo zerou Zoetis (maior detrator do mês, após resultados fracos que expuseram deterioração no núcleo de saúde animal), Abbott Laboratories (após underperformance persistente no negócio de dispositivos médicos e a decisão de alocar capital em divisões de menor crescimento) e Arthur J. Gallagher, consolidando a exposição a corretoras de seguro no nome de maior convicção do time, a Aon. Por fim, reduziu Coca-Cola após a forte alta, por entender que o valuation deixava pouco espaço adicional, ainda que a marca seja de primeira linha. As movimentações de maio reforçam o padrão do trimestre: aproveitar quedas em ativos de qualidade e consolidar nas posições de maior convicção.

Olhando adiante, a leitura do time no comentário de maio ganhou um tom mais cauteloso em relação ao mercado amplo. A equipe observa que os índices globais seguem renovando máximas, com o MSCI World subindo quase 5% só em maio, mas que a alta ficou cada vez mais concentrada: mais de 70% do retorno do segundo trimestre até aqui veio de semicondutores, hardware de tecnologia e dos hyperscalers Microsoft, Alphabet e Amazon, empresas que juntas já representam cerca de 30% do índice. Para o time, parte dos nomes ligados a IA negocia em valuations que embutem expectativas de crescimento excepcionalmente otimistas, enquanto outras áreas, como software, passaram por forte derating e voltaram a parecer baratas. Some-se a isso a expectativa de uma onda de IPOs bilionários ligados a IA no segundo semestre, que pode drenar capital justamente do grupo estreito de líderes de mercado. A combinação de mercados muito fortes, valuations elevados e concentração crescente deixa o time cauteloso com o índice como um todo, mesmo enxergando oportunidades atrativas em nomes específicos. A tese central permanece: as empresas do portfólio seguem compondo crescimento de receita e lucros, com qualidade superior à do índice, e ainda negociam a um desconto incomum de fluxo de caixa livre. Nesse ambiente, a recomendação do próprio time é uma abordagem seletiva, de qualidade e baixa ciclicidade, que tende a oferecer resiliência de longo prazo. O risco geopolítico e a possibilidade de um cenário de stagflação, caso a energia se mantenha cara, seguem como pano de fundo em que a baixa ciclicidade do portfólio deveria ajudar.

Como interpretamos o fundo daqui em diante

Nossa leitura sobre o Morgan Stanley Global Brands continua firme, ainda que seja necessário reconhecer o desconforto da janela recente (e que cada vez mais se torna uma janela maior de resultados pouco inspiradores). O fundo passa por um momento atípico dentro do seu histórico de três décadas: empresas com retorno sobre capital quase três vezes superior ao do índice, margens cerca de 1,7 vez maiores, balanços mais sólidos e crescimento de receita esperado acima da média estão negociando, em conjunto, com desconto em termos de preço sobre fluxo de caixa livre em relação ao mercado. Esse tipo de configuração foi raro nas últimas décadas.

Vale também relembrar a função estrutural do fundo dentro da fatia de gestão ativa internacional. Enquanto o Global Opportunity costuma oferecer beta elevado e exposição concentrada a vetores de crescimento secular, o Global Brands cumpre o papel oposto: tende a ser uma peça mais defensiva do bloco ativo internacional, com perfil de menor volatilidade histórica e maior estabilidade de margens das empresas em carteira. Os dois últimos anos foram atípicos porque a defensividade habitual não se materializou, em razão da natureza específica do choque (oil shock em vez de growth scare). Em cenários mais clássicos de aversão a risco, o fundo costuma cumprir seu papel.

Para o assinante que aloca uma parte da fatia internacional em gestão ativa, pelo menos por enquanto, manteremos o Global Brands como opção para quem prefere uma experiência mais “tranquila”. Entretanto, é importante lembrar que nossa principal escolha para compor a carteira é o fundo que consta em nossa tabela oficial de recomendação, no caso, o Morgan Stanley Global Opportunity.

Wellington Ventura (Wellington Global Quality Growth)

Características do fundo e estilo de gestão

Fechamos a parte de fundos com o Wellington Global Quality Growth, estratégia da gestora americana Wellington Management que no Brasil é acessada pelo feeder fund Wellington Ventura. A estratégia offshore foi lançada em 5 de agosto de 2014 e tem como benchmark o MSCI All Country World Index Net, o mesmo do Global Opportunity (e diferente do MSCI World do Global Brands, que não inclui mercados emergentes).

A Wellington Management é uma das maiores gestoras independentes do mundo, com mais de USD 1,29 trilhão sob gestão e cerca de 3.070 clientes em 66 países. A casa tem uma plataforma de research centralizada que existe desde 1958, com 55 analistas globais de indústria dedicados, organizados por setor. Esse é um diferencial importante: o time de gestão do fundo não constrói as ideias sozinho, mas se apoia em uma estrutura ampla de research setorial que alimenta o processo de seleção.

A gestão é liderada por Steve Angeli (33 anos de experiência), com apoio de Joe Chung, Alvaro Llavero, Tim Manning e Terry Tian no time central de gestão.

A filosofia do fundo é o que a casa chama de Quality Growth. O processo parte de um universo amplo de mais de 3.000 ações globais e filtra com base em quatro pilares fundamentais, mais um quinto critério de revisões de lucros:

•       Crescimento: crescimento orgânico de receita.

•       Qualidade: margem de fluxo de caixa livre e retorno sobre o capital empregado.

•       Upside de valuation: potencial de alta para o preço-alvo, calculado a partir de um modelo de fluxo de caixa descontado.

•       Retorno de capital: dividendos e recompras de ações como percentual da capitalização de mercado.

•       Melhoria nos fundamentos: revisões positivas das estimativas de lucros nos últimos seis meses, usadas como filtro para evitar empresas com sentimento de curto prazo deteriorado.

O universo inicial é refinado a cerca de 1.000 ações, depois a 500, depois a uma focus list de aproximadamente 200 nomes (o quintil de melhor classificação no modelo de pontuação relativa). O portfólio final fica com 60 a 90 ações, em pesos típicos de 100 a 250 bps ativos em relação ao benchmark.

Um elemento que merece destaque é o Global Cycle Index (GCI), índice proprietário da Wellington composto por sete componentes macroeconômicos (confiança industrial, confiança do consumidor, utilização da capacidade, taxa de desemprego, curva de juros global, incerteza de política econômica e atividade de M&A). O GCI influencia os pesos dos quatro fatores na construção da carteira. Quando o GCI está acelerando, o time pende para crescimento e upside de valuation. Quando está desacelerando, pende para qualidade e retorno de capital. No primeiro trimestre de 2026, com indicadores macro mostrando melhora, o fundo estava com os pesos em 30% para crescimento, 30% para upside de valuation, 20% para retorno de capital e 20% para qualidade. Em maio, voltou para 25% em cada um dos quatro fatores, refletindo a elevação da incerteza de política após o choque de energia.

Em termos de risco, o Wellington Ventura é a estratégia mais equilibrada dos três fundos que recomendamos. O active share está em 69%, o tracking error histórico de três anos é de 3,35% e o beta de três anos está em 0,99. Esses números desenham com clareza o perfil do fundo: é uma estratégia que se desvia do índice de forma deliberada e seletiva, mas sem se afastar tanto a ponto de oferecer o tipo de comportamento mais “irregular” em comparação ao índice de referência do Global Opportunity (beta 1,31, tracking error 11,18%). É também menos defensiva que o Global Brands em termos estruturais, porque a carteira do Wellington carrega exposição relevante a tecnologia e ações de crescimento de alta qualidade.

As características fundamentais da carteira reforçam esse posicionamento de meio termo. A média do fundo apresenta crescimento esperado de receita de 10% (contra 8% do universo), margem de fluxo de caixa livre de 22% (contra 15%), upside médio de valuation de 27% (contra 7%) e retorno de capital total de 2,9% (contra 2,4%). Tudo isso negociando a um múltiplo EV/FCF cerca de 15% abaixo da média do universo (segundo dados do fechamento de abril de 2026).

Performance recente

A história dos últimos meses do Wellington Ventura é, por construção, mais sutil do que a dos outros dois fundos. Não houve o tipo de drawdown extremo que machucou o Global Opportunity no primeiro trimestre, mas também não houve o tipo de descolamento estrutural negativo que o Global Brands acumula. O fundo entregou um 2025 com performance relativa fraca, viu o primeiro trimestre de 2026 difícil no mesmo movimento de rotação que afetou as estratégias de qualidade e crescimento, e teve uma recuperação parcial em abril e maio que devolveu boa parte do prejuízo relativo do início do ano.

Performance do fundo Classe N vs MSCI All Country World Index Net (em dólares)

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Fonte: Wellington Management, factsheets mensais (abril e maio de 2026) e quarterly commentary do 1º trimestre de 2026. YTD calculado a partir dos retornos mensais.

Para contextualizar a magnitude, em 2025 o fundo entregou 17,3% em USD contra 22,3% do MSCI ACWI. É uma diferença relevante, mas dentro do que se espera para uma estratégia com tracking error baixo. Não é a defasagem de dois dígitos que o Global Opportunity acumulou no mesmo período, nem o quase empate com o índice que o Global Brands costumava entregar.

O que ajudou e o que atrapalhou

A leitura da atribuição de performance é onde a história fica mais interessante, porque mostra o tipo de seleção bottom-up que diferencia o Wellington dos outros dois fundos. Vou separar por trimestre/mês porque os contribuidores positivos e negativos mudaram bastante de identidade ao longo da janela.

No primeiro trimestre de 2026, os principais contribuidores foram:

•       Corning (+48 bps): a empresa de vidro óptico subiu fortemente após anunciar um contrato de USD 6 bilhões de fornecimento de fibra óptica para a Meta, ligado à expansão de data centers para IA.

•       Cia de Saneamento Básico (SABESP) (+36 bps): a única empresa brasileira em carteira (atualmente entre as top 10 posições) contribuiu materialmente. A privatização e a entrada do Equatorial como controlador foram catalisadores importantes ao longo do trimestre.

•       Hanwha Aerospace (+34 bps), Targa Resources (+33 bps) e United Therapeutics (+32 bps): nomes de aeroespacial coreano, energia midstream americana e biotecnologia, respectivamente, surfaram o ambiente favorável a defensivos e ativos com cash flow protegido.

E os detratores do primeiro trimestre:

•       Bharti Airtel (-26 bps): resultado misto no terceiro trimestre fiscal, com crescimento sólido de ARPU mas queda no lucro líquido por efeitos comparativos de base.

•       Recruit Holdings (-26 bps): nome que o fundo zerou ao longo do trimestre.

•       Não ter Exxon Mobil (-24 bps) e não ter UBS (-23 bps): em um trimestre em que energia liderou o índice e financials europeus subiram com a alta de juros, a ausência desses nomes na carteira penalizou a performance relativa.

Em abril de 2026, o quadro virou. A seleção de ações em consumo discricionário, indústrias e materiais drenou da contribuição positiva. Flex e Jabil foram os top dois contribuidores relativos: a Flex, que é uma posição overweight relevante e estava entre as top 10 holdings, subiu fortemente após anunciar a aquisição da Electrical Power Products por USD 1,1 bilhão, abrindo uma nova frente em tecnologias críticas de energia para data centers. Do lado negativo, os dois principais detratores tiveram naturezas opostas: não ter Intel em carteira (a ação subiu fortemente depois que a empresa reportou resultados do primeiro trimestre e guidance do segundo trimestre bem acima do esperado, com a gestão da Intel citando demanda sem precedentes nos segmentos Datacenter & AI e Foundry como o motor principal do resultado), e o overweight em Merck & Co (posição detida pelo fundo, em peso acima do índice, que teve performance ruim no mês).

Em maio de 2026, o fundo subiu 4,8% contra 5,2% do índice. A história continuou em torno da Flex (+98 bps de contribuição), que dessa vez subiu fortemente após anunciar o spin-off do negócio de cloud e infraestrutura de energia para capturar o crescimento de data centers e infraestrutura digital. Dell Technologies (+50 bps) e SK hynix (+46 bps) contribuíram com o tema de hardware ligado a IA. Do lado negativo, o ponto mais relevante foi não ter Micron Technology (-49 bps): a empresa se valorizou fortemente junto com o restante do setor de memória, ultrapassou a marca de USD 1 trilhão em capitalização de mercado pela primeira vez e o fundo ficou de fora do movimento. A Cia de Saneamento Básico (SABESP), que tinha sido contribuidora positiva no Q1, devolveu boa parte do ganho em maio (-36 bps), mostrando a volatilidade típica de posições brasileiras dentro de uma carteira global.

A estratégia de meio termo precisa ser lida no contexto certo

A pergunta natural depois de ler a tabela acima é: o que se ganha com a escolha deste fundo em relação a nossa opção principal Morgan Stanley Global Opportunity? A resposta direta é: um caminho mais suave em troca de um teto de retorno relativo também mais baixo. Essa é a natureza estrutural da estratégia Quality Growth.

Os números de longo prazo ajudam a colocar a janela recente em perspectiva. Desde a criação do fundo, em agosto de 2014, a estratégia entregou 12,8% anualizados em USD contra 10,7% do MSCI ACWI, uma geração de alfa anualizada de +2,1 p.p. ao longo de mais de 11 anos (dados da classe USD N Acc até 30 de setembro de 2025). Em janelas móveis de 5 anos, a Wellington publica um gráfico de dispersão que mostra que a maior parte dos pontos está acima da linha de 45 graus que representa a performance do índice, ou seja, o fundo superou o índice na maioria das observações em janelas móveis de cinco anos (conforme apresentado no gráfico abaixo).

 

Fonte: Wellington

Por outro lado, é justo reconhecer que os últimos cinco anos foram mais difíceis. O retorno anualizado de 5 anos está em 9,3% para o fundo contra 11,5% do índice (-2,2 p.p. anualizado), e o de 1 ano até maio em 23,3% contra 30,3% (-7,0 p.p.). Isso reflete um regime de mercado em que a liderança ficou cada vez mais concentrada em um número pequeno de mega-caps. Fundos com active share relevante (69%, no caso) e portfólios diversificados de qualidade tendem a ficar para trás nesse tipo de regime, não porque escolheram mal, mas porque o mercado decidiu pagar concentração extrema.

Vale dizer também o que essa estratégia não promete. Ela não vai entregar +30 p.p. de alfa em um ano excepcional para ações de crescimento, como o Global Opportunity já fez em 2020 ou 2023. E não vai oferecer a proteção defensiva clássica do Global Brands em uma queda de risk-off pura. O que ela se propõe a entregar é uma exposição diversificada a empresas com fundamentos superiores ao índice em múltiplas dimensões (margens, retorno sobre capital, crescimento, qualidade do balanço), com uma volatilidade relativa controlada e geração de alfa consistente ao longo do tempo.

Posicionamento atual e outlook

O posicionamento ao final de maio de 2026 mostra o tipo de equilíbrio que define a estratégia. Vou começar pelo nível setorial.

Os principais overweights setoriais são tecnologia da informação (35,8% da carteira contra 32,2% do índice), real estate (4,9% contra 1,6%, um overweight relevante de mais de 3 p.p.) e saúde (10,5% contra 7,8%). Serviços de comunicação também aparecem sobrealocados (9,7% contra 8,3%). Os principais underweights são consumo básico (cerca de 1% contra 4,5% do índice), consumo discricionário (6,6% contra 9,1%) e energia (1,3% contra 3,7%), com o financeiro também ligeiramente abaixo (14,9% contra 15,6%).

Os maiores overweights regionais são Reino Unido e Japão, ambos historicamente subponderados em fundos globais. O maior underweight segue sendo América do Norte (cerca de 57% da carteira contra 67% do índice). Esse é um padrão coerente com uma gestora que olha valuation: as empresas americanas estão caras em termos relativos, então o time encontra mais oportunidades em jurisdições onde o múltiplo é menor.

Top 10 posições do fundo, em 31 de maio de 2026

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Fonte: Wellington Management, factsheet de maio de 2026. As 10 maiores posições representam aproximadamente 33,4% do fundo contra 24,3% do índice de referência (top 10 do MSCI ACWI).

A leitura desse top 10 ajuda a entender a tese. As 7 Magníficas estão lá, mas em pesos ativos moderados. Alphabet em 5,3% (vs 3,9% do índice) é o maior overweight de mega-cap. NVIDIA em 5,1% (vs 4,9%) é praticamente neutra. Apple em 3,4% (vs 4,4%) está underweight. Microsoft tem leve overweight, Amazon e Broadcom ligeiramente acima do índice. A história fica mais interessante nos nomes não-mega-cap: Taiwan Semiconductor em 3,5% (vs 1,8%), SK hynix em 2,1% (vs 0,8%) e Jabil em 1,9% (vs zero no índice) são apostas claras no tema de infraestrutura de IA por meio da cadeia de hardware, em vez de pelos beneficiários óbvios.

As principais movimentações de carteira no segundo trimestre também mostram a direção do time. As principais compras foram Apple (de 1,1% para 3,4% da carteira), além de novas posições em AIA Group e Elevance Health. As principais vendas foram a saída completa de Tencent e Cencora. O aumento expressivo em Apple ao longo de maio é notável e foi feito após a queda da ação no primeiro trimestre, quando ela passou a parecer relativamente barata para a casa.

Em termos de outlook, o time mantém uma visão construtiva para ações globais, com preferência por gestão ativa bottom-up. O posicionamento atual reflete pesos equilibrados (25% para cada um dos quatro fatores), o que indica que o time não está vendo um regime claro para inclinar a carteira em uma direção específica.

Fonte: Wellington

Como interpretamos o fundo daqui em diante

Nossa leitura sobre o Wellington Ventura é a de manutenção da recomendação, com a observação de que o fundo tem um comportamento diferente dos outros dois ativos globais que temos como opção de recomendação.

Enquanto o Morgan Stanley Global Opportunity oferece concentração e beta elevado em vetores de crescimento secular, e o Global Brands cumpre o papel de peça defensiva com empresas de marca e alto retorno sobre capital, o Wellington Ventura é o componente de equilíbrio estrutural. Active share de 69%, beta próximo de 1, tracking error baixo de 3,3%, posicionamento amplamente alinhado ao índice em termos de risco, mas com seleção ativa criteriosa de empresas com fundamentos superiores. Em períodos como o atual, em que nem ações de crescimento nem ações defensivas estão funcionando perfeitamente, o perfil do Wellington tende a fazer mais sentido relativo do que em janelas de polarização clara entre estilos.

O fato de o fundo ter recuperado boa parte da defasagem do Q1 nos meses seguintes (abril com leve outperformance de +0,5 p.p. e maio próximo do índice) é coerente com o que se espera de uma estratégia com tracking error baixo: o desvio do índice tende a se materializar de forma mais distribuída no tempo do que em movimentos bruscos. Esse é também o motivo pelo qual a recuperação foi menos intensa do que a do Global Opportunity, que recuperou boa parte da queda do trimestre em um único mês.

Para o assinante que decide alocar parte da fatia internacional em gestão ativa, o Wellington Ventura segue como uma das três opções recomendadas. Ele funciona especialmente bem para o investidor que quer participar de gestão ativa sem aceitar o tipo de oscilação relativa do Global Opportunity, e que ao mesmo tempo não quer abrir mão totalmente da exposição a temas de crescimento como o Global Brands faz. É a opção de meio termo da nossa lista, mas o adjetivo aqui não tem conotação negativa: meio termo, na carteira de gestão ativa, significa adicionar um perfil de risco distinto dos outros dois e, portanto, uma fonte de retorno adicional para a diversificação.

Um adeus à estratégia Fundsmith

Antes de fechar a parte de gestão ativa, precisamos comunicar uma decisão que vinha sendo discutida internamente há algum tempo: a partir deste relatório, o Fundsmith Equity, da gestora britânica Fundsmith, liderada por Terry Smith, deixa de ser uma das opções recomendadas para a fatia de gestão ativa internacional dos assinantes qualificados.

Vale contextualizar a história. A entrada do Fundsmith nas nossas recomendações se deu em um momento em que o Wealth Internacional do BTG, que tem um relacionamento antigo com a casa por alocar capital de clientes de alta renda no fundo, abriu o acesso a um feeder local na plataforma de varejo brasileira BTG Digital. Naquele momento, fomos muito bem recebidos pelo time do BTG, que representou os interesses da Fundsmith e nos forneceu o material necessário para fazermos uma análise completa e independente dos resultados históricos, do processo de investimento e do estilo de gestão. Foi essa qualidade de acesso inicial, somada aos bons resultados históricos do fundo, que sustentou a recomendação na época.

O problema é que, com o passar do tempo, esse acesso foi se tornando cada vez mais escasso. Nos últimos meses, nossa cobertura passou a depender quase exclusivamente de fontes públicas e dos próprios documentos divulgados pela gestora.

Isso não inviabilizaria, por si só, acompanhar o fundo. O que inviabiliza, na nossa leitura, é manter uma recomendação ativa sem conseguir reforçar a convicção na tese ao longo do tempo, conversar com a gestão em janelas de desconforto, entender mudanças sutis no processo e confirmar movimentações relevantes de carteira diretamente com quem está na cadeira. Para uma estratégia de alta convicção, com poucas posições e dependente da leitura de qualidade do gestor, esse tipo de acesso é parte do trabalho de cobertura e não uma mera opcionalidade.

Soma-se a isso um ponto que sempre reforçamos por aqui sobre a filosofia da carteira Finclass. A exposição internacional do assinante é construída majoritariamente com ETFs passivos diversificados, baratos e eficientes. A gestão ativa internacional ocupa uma fatia menor da alocação, em que o Morgan Stanley Global Opportunity é a recomendação oficial dentro da carteira, e os outros fundos cobertos neste relatório aparecem como opcionalidade para o assinante que não pode ou não quer concentrar a gestão ativa em um único nome. O Fundsmith ocupava exatamente esse papel de opcionalidade.

Num espaço de carteira que já é deliberadamente pequeno, o ônus de manter uma cobertura cuidadosa de um fundo sem o amparo direto da gestora e sem suporte sustentado do distribuidor local não se justifica frente à alternativa mais simples e mais honesta: encerrar a recomendação. Não é uma crítica à Fundsmith nem ao trabalho de Terry Smith, e não é uma leitura sobre a performance recente do fundo. É uma decisão de processo, baseada no padrão de informação e de diálogo que entendemos como necessário para indicar um fundo de gestão ativa ao assinante.

O assinante que tem posição no Fundsmith não precisa ter uma grande urgência em executar o resgate dos recursos. A retirada da recomendação significa apenas que o fundo deixa de fazer parte da lista de opções cobertas pela Finclass adiante pelos motivos já expostos, mas não porque há um grande risco na estratégia que exija pressa.

Para quem decidir realocar essa fatia, as três opções discutidas neste relatório (Morgan Stanley Global Opportunity, Morgan Stanley Global Brands e Wellington Ventura) seguem como nossas recomendações de gestão ativa internacional, com a leitura completa que apresentamos nas seções anteriores. Outra opção seria realocar os recursos para o ETF que é protagonista de nossa carteira recomendada, no caso, o WRLD11 ou VT para quem investe direto no exterior.

Ficamos por aqui

Os últimos seis meses foram desconfortáveis para a fatia de gestão ativa internacional da carteira Finclass. Os três fundos que recomendamos passaram por um período de underperformance relativa, mas, como discutimos ao longo do relatório, por motivos parcialmente distintos.

O Morgan Stanley Global Opportunity pagou o preço da combinação entre beta alto, concentração em ações de crescimento e exposição grande a vetores como digitalização e inteligência artificial, em um trimestre em que o mercado rotacionou para energia, materiais e utilidades. A recuperação em abril (+9,4% no mês, em linha com o índice) e, principalmente, a partir de maio mostra que a tese estrutural segue intacta. A defasagem no ano em dólares passou de cerca de 10 pontos percentuais ao fim do primeiro trimestre para pouco mais de 8 pontos ao fim de maio e cerca de 5 pontos com os dados parciais de junho. O Morgan Stanley Global Brands enfrentou uma janela atípica em que a defensividade habitual não se materializou, porque o choque que dominou os primeiros meses do ano veio da energia, não de um clássico growth scare (aversão a risco frente a teses de crescimento). E o Wellington Ventura se comportou exatamente como sua filosofia prevê: um caminho mais equilibrado, sem o drawdown extremo de um e sem a defasagem estrutural acumulada do outro, ao custo de um teto de retorno relativo também mais baixo.

Os três fundos seguem aprovados na carteira Finclass para o assinante qualificado que decide alocar parte da fatia internacional em gestão ativa. Vale lembrar uma observação que repetimos sempre: gestão ativa internacional na classe de ações não substitui o ETFs base recomendado (WRLD11, ou VT), que continua sendo nosso protagonista na caixinha de ações internacionais. A camada de gestão ativa é uma adição opcional que oferece perfis distintos de retorno, concentração em teses de maior qualidade e uma adição de potencial de retorno que, dado o tamanho pequeno, não prejudica os rumos da carteira em caso de performance insatisfatória.

Continuaremos acompanhando a evolução dos três fundos e revisitando as recomendações conforme novos materiais das gestoras ficarem disponíveis ou conforme a evolução do contexto macroeconômico exigir uma revisão de tese. Por enquanto, mantemos a recomendação atual.

Qualquer dúvida, comentário ou crítica é muito bem-vinda. Use os canais da Finclass (lives e comunidade) para nos mandar sua opinião ou tirar dúvidas adicionais.

Um grande abraço,

Felipe Arrais

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.