O minério de ferro está presente em nosso dia a dia e muitas vezes nem reparamos. Isso porque ele é utilizado como matéria-prima na produção da chapa de aço do nosso carro, nos componentes metálicos dos eletrodomésticos e nos vergalhões utilizados na estrutura de casas e prédios próximo de nós.
É encontrado na natureza na forma de rocha – isso mesmo, ele é uma pedra! –, misturado com outros elementos. Através de diversos processos industriais, o ferro é então extraído e separado para ser utilizado.
Fonte: Vale – Reprodução
Você deve imaginar a importância que ele pode ter na atividade econômica de um país. Para o Brasil, ele é parte fundamental, já que é atualmente o mineral mais extraído e vendido, representando sozinho 72,9% do faturamento do setor de mineração.
Fonte: IBRAM
Hoje, no portfólio da série Renda Total temos uma das maiores produtoras de minério de ferro do mundo, a Vale (VALE3). E, com a ajuda da equipe de análise de renda variável da Spiti, liderada pela Aline Tavares, vamos revisitar a tese de investimento na empresa, bem como colocar os últimos resultados e calcular o novo preço-alvo para a ação VALE3.
Como resultado dessa reavaliação, já antecipamos que continuamos recomendando a COMPRA de VALE3, agora com novo preço-alvo de R$ 106.
Vamos começar!
Relembrando quem é a Vale
A Vale foi fundada no ano de 1942, como a estatal Companhia Vale do Rio Doce. Atualmente, é uma empresa privada que figura como uma das maiores mineradoras do mundo.
O minério de ferro produzido pela companhia se destaca pela alta qualidade em razão do seu alto grau de pureza, uma vez que a commodity é encontrada na natureza na forma de rochas, misturada a outros elementos, e precisa de processos de beneficiamento para ser vendida para as siderúrgicas.
A Vale também é produtora de outros minerais, como ferroligas e manganês. No segmento de metais básicos, ela se destaca pela produção de (i) níquel, utilizado na indústria de aço inoxidável, ligas metálicas e na produção de diversos produtos, como baterias, e (ii) cobre, muito utilizado para a condução de energia. Além disso, também produz carvão, matéria-prima utilizada na geração de energia e na própria transformação de minério de ferro em aço pelas siderúrgicas.
A companhia também atua do setor de logística, operando ferrovias, terminais marítimos, centros de distribuição e portos no Brasil e em outras regiões do mundo – e nos setores de energia e siderurgia, através de joint ventures (uma parceria entre duas empresas já existentes que trabalham com um propósito definido e por tempo limitado, sem que nenhuma delas perca sua identidade).
Composição acionária e governança corporativa
A Vale abriu capital em 1943, na antiga Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, e no ano de 1968 foi listada na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
Em 2017, anunciou sua migração para o Novo Mercado, o mais alto nível de governança corporativa das empresas listadas na B3, status que garante a acionistas minoritários um tag along de 100%, ou seja, em caso de venda do controle da companhia, minoritários têm o direito de vender suas ações pelo mesmo preço ofertado a acionistas majoritários. Além disso, de acordo com o regulamento do Novo Mercado, o conselho de administração deve ser composto por no mínimo cinco membros, dos quais 20% devem ser conselheiros independentes.
A Vale atualmente é uma corporation, ou seja, possui 100% de suas ações negociadas em Bolsa – sem um controlador específico, ou seja, com controle difuso. Seus maiores acionistas são Previ, Capital World Investors, Capital Research Global Investors e Bradespar.
Em novembro de 2020, ocorreu o término do acordo de acionistas da companhia, que era formado por Litela Participações, Litel Participações, Bradespar, Mitsui & Co. e BNDES Participações. A Bradespar, empresa que administra participações acionárias do Banco Bradesco, garantiu a manutenção de sua influência na administração da Vale por meio do direito de possuir um membro no conselho de administração da companhia.
Além disso, é importante ressaltar que o governo brasileiro possui 12 golden shares, que são ações que conferem a ele o direito de veto a determinadas decisões como liquidação da empresa e mudança do objetivo social relativo à exploração de jazidas minerais. Além disso, o governo também possui uma participação indireta na companhia através da Previ, fundo de pensão que gerencia a previdência complementar dos funcionários do Banco do Brasil.
Fontes: Vale e Spiti
Minério de ferro
A produção de minério de ferro, que no ano de 2020 representou cerca de 80% da receita líquida da companhia, tem como destino a indústria siderúrgica, que é dependente de diversos fatores, como produção industrial global e nível de atividade dos setores de construção civil e infraestrutura.
Em relação à estratégia da companhia, a Vale tem adotado medidas para a maximização do “flight to quality” no minério de ferro, que se baseia na produção de um minério de alta qualidade e com baixa emissão de CO2. Além disso, no curto e médio prazos, a Vale está focada em melhorar sua competitividade, retomando sua capacidade de produção e diluindo seus custos fixos de produção.
Atualmente, possui uma capacidade de produção de 341 Mtpa (milhões de toneladas por ano) de minério de ferro, aumento de 6,6% em relação ao ano de 2020. No médio prazo (em até cinco anos), a Vale espera alcançar uma produção de 400 Mtpa, o que representa um incremento de 17% em relação à capacidade atual.
A companhia projeta que essas eficiências farão com que o breakeven do Ebitda, ou seja, o montante de custo em dólar por tonelada a partir do qual a companhia passa a ter lucro com a operação, passe de US$ 45 por tonelada para um valor entre US$ 30 e US$ 35 por tonelada.
Fonte: Vale
Concorrentes
Os principais players mundiais que competem com a Vale no mercado de minério de ferro no continente asiático são as australianas BHP Biliton, Rio Tinto e FMG (Fortescue Metals Group). O grande diferencial da companhia brasileira frente a seus pares é a qualidade de seu minério de ferro, que, por possuir baixos níveis de impurezas, costuma resultar em custos mais baixos de processamento pelas siderúrgicas, o que é especialmente importante para momentos de demanda aquecida.
Por outro lado, devido às menores distâncias, os custos com frete das empresas australianas são mais competitivos do que os da Vale, que tenta mitigar essa desvantagem através da operação de dois centros de distribuição, um na Malásia e outro em Omã.
Fonte: Vale
Metais básicos
O ano de 2021 foi desafiador para o segmento de metais básicos, uma vez que a companhia enfrentou atrasos em suas operações devido a restrições na mobilidade de terceiros em decorrência da Covid-19.
Atualmente, a Vale possui uma capacidade de produção de níquel de 165-170 kt (quilotonelada) e espera que em 2022 alcance uma produção de 175-190 kt. A produção do metal se concentra principalmente em sua subsidiária localizada no Canadá.
Em 2020, do total das vendas de níquel refinado da Vale, 31% foram destinadas ao mercado asiático, 40% para a Europa, 26% para a América do Norte e 3% para outros mercados. Desse montante, cerca de 78% das vendas foram destinadas a aplicações que excluem aço inoxidável (que utiliza níquel de qualidade inferior), em comparação à média de 30% das empresas produtores do metal.
A Vale tem como meta atingir entre 30% e 40% da produção de níquel destinada à indústria de veículos elétricos (VEs) da América do Norte no prazo de até cinco anos. Além disso, planeja desenvolver um processo de reciclagem para recuperação de níquel e cobalto e está avaliando opções para construir uma planta de sulfato de níquel no Canadá. Através da PT Vale Indonésia Tbk (PTVI), a companhia possui acesso a um dos maiores recursos de níquel da Indonésia, país que desempenha um papel estratégico na indústria global do metal.
Fonte: Vale
Em relação ao cobre, a Vale possui uma capacidade de produção de 295-300 kt e espera que 2022 alcance uma produção de 330-355 kt. A produção do metal se concentra principalmente nas minas do Sossego e Salobo, localizadas em Carajás, no estado do Pará. A empresa está fortalecendo o seu portfólio de cobre na região através da construção do complexo de mineração Tier 1, que conta com uma nova mina subterrânea (mina do Alemão), e ainda estão em estudo o projeto Cristalino e o desenvolvimento da área denominada “Hub Norte”, próxima à mina do Salobo e que vai garantir sinergias para a operação devido à infraestrutura já existente.
Fonte: Vale
Concorrentes
O mercado global de níquel, assim como o de minério de ferro, é altamente competitivo e tem como principais players as empresas Nornickel, Glencore, Jinchuan Nonferrous Metals, Tsingshan Group e Jiangsu Delong Nickel, que juntamente com a Vale representaram aproximadamente 44% da produção mundial de níquel primário refinado no ano de 2020.
A Vale se destaca pelo fato de a maioria de seus produtos de níquel serem de alta qualidade e destinados a indústrias específicas, como de aeronaves e naves espaciais.
Em relação ao mercado de cobre, os principais concorrentes da companhia são as empresas Freeport McMoRan, Glencore, BHP Billiton, Codelco, Anglo American, Antofagasta, Rio Tinto e First Quantum.
Brumadinho e agenda ESG
Em fevereiro de 2021, a Vale assinou um Acordo Judicial para Reparação Integral com o estado de Minas Gerais, a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais e os Ministérios Públicos Federal e do Estado de Minas Gerais, para a reparação dos danos ambientais e sociais decorrentes do rompimento da barragem de Brumadinho no valor de R$ 37,7 bilhões.
Em novembro, a companhia informou que 55% desse montante já havia sido destinado (i) ao programa de transferência de renda para as comunidades locais; (ii) a projetos demandados pelas comunidades atingidas; e (iii) para a melhoria da segurança hídrica na região atingida. Além disso, informou que 98% das vítimas com pelo menos um familiar possui acordo de indenização assinado com a Vale.
A companhia tem se comprometido em melhorar suas práticas S&SO (saúde e segurança ocupacional). Desde 2018, conseguiu reduzir consideravelmente as ocorrências de lesões de alto potencial e a taxa total de frequência de lesões registráveis, alcançando um patamar inferior ao de suas concorrentes.
Fonte: Vale
Além disso, a Vale segue com seu plano de descaracterização das barragens de rejeitos a montantes, com sete barragens eliminadas desde 2019, duas concluídas em 2021 e 23 remanescentes, com expectativa de conclusão em 2035.
A segurança das barragens também tem apresentado progresso, com a redução das estruturas de riscos (barragens, diques e pilhas) que são medidas pelos níveis de emergência 1, 2 e 3, sendo o último o mais perigoso. A Vale tem a expectativa de que até o ano de 2025 nenhuma barragem esteja em condição crítica de segurança.
Fonte: Vale
A mineradora também tem se comprometido a melhorar suas práticas sociais e possui metas definidas até o ano de 2030 de retirar 500 mil pessoas da pobreza extrema (que vivem com menos de US$ 1,95 por dia), ajudar as comunidades indígenas vizinhas às operações da empresa com planos de direitos do UNDRIP (Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas) e figurar entre as três principais empresas no quesito de mineração sustentável.
Também possui metas ambientais de, até 2030, (i) reduzir suas emissões de CO2 em 33% e alcançar a neutralidade até 2050; (ii) recuperar e proteger mais de 500 mil hectares de florestas; (iii) reduzir em 10% sua captação de água; e (iv) ter 100% de energia renovável em suas operações no Brasil e no mundo.
Fatores de risco para a tese de investimento
- Dependência da Ásia. Como comentado anteriormente, a receita da companhia tem uma grande dependência das exportações do minério de ferro, e a China, nos últimos anos, tem sido o principal propulsor de demanda e de preços mundiais. No ano de 2020, o país apresentou um crescimento de 7,0% em sua produção de aço devido aos estímulos governamentais no país com o intuito de estimular a economia, afetada pela pandemia da Covid-19. Dessa forma, a China consumiu 67% do minério de ferro produzido pela Vale e o continente asiático como um todo, 81%. Europa e Brasil tiveram uma participação de 8% cada um, seguido pelo Oriente Médio, com uma participação de 3%. Nesse sentido, os dez maiores clientes da companhia representaram 42% da receita total de minério de ferro, sendo que apenas um cliente teve uma participação de 10,1%.
- Rompimento de barragem. A empresa ainda possui 23 barragens “a montante” (semelhante à de Brumadinho) e que possuem um maior risco de instabilidade.
- Risco ambiental. As operações da companhia envolvem a utilização e descarte de substâncias perigosas no meio ambiente e o uso de recursos naturais, que podem resultar em riscos de incêndio, explosão, vazamento de gases tóxicos, derramamento de substâncias poluentes, entre outros.
Perspectivas para o setor
Embora a economia chinesa esteja passando por dificuldades em relação ao abastecimento de energia, em razão das metas de redução de carbono que o governo do país se comprometeu a implementar, espera-se que no ano de 2022 esse cenário se normalize, pelo menos, parcialmente.
No último mês de dezembro, o governo chinês sinalizou que vai implementar novas isenções fiscais e corte de impostos para empresas, além de incentivar os investimentos em infraestrutura, com o intuito de estimular a economia do país. O Citigroup projeta que no próximo ano haverá uma redução dos gargalos das cadeias de abastecimento e um potencial aumento na oferta de crédito na China, o que tende a aumentar a demanda por metais básicos nos próximos anos.
Além disso, no segundo semestre de 2021 os Estados Unidos aprovaram um pacote de investimentos em infraestrutura no montante de US$ 1 trilhão, destinado à construção e modernização de estradas, pontes, portos, ferrovias, entre outros, o que promete aquecer a indústria siderúrgica.
Nesse plano de infraestrutura também está prevista a construção de 500 mil estações de recarga para veículos elétricos com o objetivo de construir uma rede nacional para o abastecimento desses veículos no país, o que acreditamos ser uma medida fundamental para o crescimento de vendas e desenvolvimento do mercado de veículos elétricos norte-americano.
Perspectivas para a companhia
Ao longo dos últimos anos, a Vale tem buscado simplificar seu portfólio de produtos e focar em suas atividades-core. Desde 2015, já se desfez de vários negócios, como ativos de carvão na Austrália, fertilizantes no Peru e óleo de palma no Brasil (Biopalma). No último dia 13 de dezembro, a companhia informou que vai vender sua participação de 50% na California Steel Industries (CSI), empresa produtora de aços laminados e tubos de aço, por US$ 400 milhões.
Dessa forma, como muitos desses desinvestimentos consumiam caixa da companhia, a Vale planeja aumentar seus investimentos em soluções que melhorem sua eficiência de custos e que gerem uma redução estimada em US$ 1 bilhão.
Esse ganho de eficiência vai permitir que a companhia invista em planos de expansão da capacidade de produção de minério de ferro, cobre e níquel, conforme demonstrado abaixo. O capex estimado para o ano de 2022 é de US$ 5,8 bilhões e, para os anos seguintes, uma média entre US$ 5,0 bilhões e US$ 6,0 bilhões.
A empresa estima que no curto prazo terá um aumento na capacidade de produção de 30 milhões de toneladas (Mt) de minério de ferro e 30 kt a 40 kt de cobre.
Fonte: Vale
Revisão do preço-alvo
Revisitamos o modelo de valuation de Vale e incorporamos as perspectivas atualizadas para o setor e para a companhia. Para a análise, projetamos a cotação do minério de ferro abaixo do observado em 2021, por este ter sido um ano atípico para a commodity devido às consequências da crise provocada pela pandemia da Covid-19.
Em relação ao cenário macroeconômico, como já comentamos anteriormente, atualizamos o modelo de precificação levando em consideração o ciclo de elevação da taxa Selic. Veja a seguir o resultado da nossa projeção para a empresa para os próximos anos:
Fonte: Spiti
Conclusão
A Vale desempenhou um papel importante na carteira Renda Total, tanto em 2020 quanto em 2021. No ano passado, a empresa, que representa 5% da carteira, entregou 19,16% de dividendos, e a expectativa média do mercado para 2022 é de dividendo da ordem de 9,53%.
Continuaremos com a tese de investimentos na Vale, uma das maiores empresa de mineração do mundo e que paga bons dividendos para a nossa carteira de renda. Assim, reiteramos nossa recomendação de compra para Vale (VALE3) com novo preço-alvo de R$ 106.
Um abraço,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto