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Vale (VALE3): uma obra de arte na sua carteira

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

10 min de leitura

Quando pequeno, eu, Filipe, não era um apreciador nato de futebol, muito menos tinha videogame para jogar na hora do intervalo na escola. Por isso, não criei recordações marcantes dos momentos de descontração no recreio. No entanto, um lugar em especial ficou pra sempre na memória: a misteriosa sala no fim do corredor de baixo da cantina.

Era aquele tipo de coisa que fazia surgir diversas lendas urbanas. Muitos alunos acreditavam que uma assombração ou algum tipo de monstro que se escondia na sala, mas quase ninguém sabia o que tinha ali. Curioso que sou, decidi adentrar sozinho nesse território e galgar com fôlego o território inexplorado.

Quanto mais me aproximava da sala, um cheiro forte de óleo se alastrava – fato que confirmava minha hipótese de que ali vivia uma criatura terrível, um dragão mesmo. Ao chegar mais perto da porta entreaberta, escutei a voz de uma pessoa conhecida e resolvi abri-la de vez, ainda que tremendo feito vara verde.

Para minha surpresa, não encontrei nenhum dragão, muito menos assombração. Ali se encontravam alunos mais velhos, do sétimo ao nono anos, reunidos em uma sala muito suja de pó, com potes de tintas sobre a mesa, quadros expostos e telas sendo pintadas, bem como uma fileira de pedras-sabão. Sim, tratava-se de uma oficina artística (bem escondida, por sinal) dentro da escola.

O professor de artes que comandava aquela turma então me ofereceu a oportunidade de fazer as aulas com eles, e descobri uma nova paixão, a escultura em pedra-sabão, prática com a qual ainda estou habituado. Desde então, minha veia artística continua muito forte, mesmo que eu tenha seguido o caminho das finanças. Tanto que, pelo menos uma vez ao ano, eu me comprometo a fazer um workshop a fim de aprender técnicas diferentes para trabalhar o material.

Assim, usando minha liberdade poética, trago hoje a mais nova recomendação: uma empresa sólida feito a rocha que esculpia quando criança, mas que, infelizmente, tem causado certo receio nos últimos anos devido aos incidentes com as barragens de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, que impactaram não somente o meio ambiente e a vida de muitas famílias, mas também a credibilidade da empresa como um todo. A questão é que, da mesma forma que seus milhões de sócios, acredito muito que a Vale seja, sim, uma verdadeira obra de arte nacional e deve ter um espaço reservado na sua carteira.

Com dividendos fartos e a alta do preço das commodities, a Vale (VALE3) entra em nosso portfólio de recomendações para ser mais uma ferramenta de geração de renda e, claro, de potenciais ganhos para você.

A empresa em números

A Vale é reconhecida mundialmente por ser um dos maiores exportadores de minério de ferro. Inclusive, o minério extraído da mina de Carajás (PA) é famoso pela sua alta qualidade, considerado o melhor do mundo.

Recentemente, a empresa divulgou os resultados do terceiro trimestre de 2020 (3T20): abaixo do esperado, porém majoritariamente positivos. O lucro nesse período, por exemplo, foi 76% maior em comparação com o 3T19, e 192% maior do que o obtido no 2T20.

A Vale atualmente atua em mais de 30 países e é considerada a maior exportadora de ferro do mundo, empregando mais de 125 mil pessoas.

Uma gigante!

Os fundamentos da análise

Existem três pontos que preciso endereçar para mostrar que acredito muito no potencial da Vale:

1. Previsão da demanda

Este ponto é talvez o que mais causa impactos na análise em relação à situação futura de uma empresa. Se o produto que vende não possui demanda, ela dificilmente sobrevive, e não seria diferente no caso da Vale.

De forma simples, a companhia atua na exploração de jazidas de minério de ferro, níquel e cobre, e revende o material bruto. Na classificação de produtos, são considerados commodities, ou seja, possuem um preço bem demarcado no mercado. E os aumentos da demanda global por commodities, da produção e do preço dos ativos, provocaram uma melhora significativa nos resultados do 3T20.

O aumento na produção superou a meta preestabelecida pela Vale em duas linhas de negócio:

  • Ferro, com produção superior de 33% frente ao 2T20;
  • Níquel, com produção superior de 37,3% em relação ao 2T20.

E a demanda, que foi puxada fortemente pela China no 3T20, possibilitou esse aumento substancial.

“Mas, Fê, e a Covid-19?”

Nota-se também que a possível segunda onda da Covid-19 está sendo muito bem administrada pelos chineses, tanto que o país ainda não dá sinais de diminuir sua demanda por commodities. Dessa forma, consolido aqui que minha expectativa da demanda por minério de ferro para os próximos meses ainda estará em alta.

Outro ponto importante: o minério atingiu a cotação mais elevada desde o início de 2019, como mostra o gráfico abaixo:

Fonte: Bloomberg

Para que você entenda: no eixo vertical, temos a cotação diária em dólar da tonelada do ferro vendido no mercado. Em outras palavras, por quanto a tonelada de ferro estava sendo vendida no mercado internacional em cada mês.

Tal fato, alinhado com a grande “fome” do mercado pela commodity, tem levado a estimativa do valor do ferro nos próximos meses a uma queda. No entanto, a média de preço no 2T20 estava na casa de US$ 80; mesmo assim, nesse período a Vale retornou um lucro substancial.

Ou seja, mesmo se o preço do ferro cair para patamares similares ao 2T20, o aumento atual do consumo de ferro pode ter papel decisivo na previsão de lucro para o fim do ano.

2. Índices importantes

O filme “Jerry Maguire – A Grande Virada” – de que gosto muito, aliás – tem uma das cenas e frases mais emblemáticas do cinema, que o personagem-título, interpretado por Tom Cruise, fala quando está passando por uma dificuldade no trabalho:

“Show me the money!” – “Me mostre o dinheiro”, em tradução livre.

E é muito importante que as empresas também o façam – no caso, mostrar os seus resultados e balanço. Depois que o lucro é aferido, faz-se necessário descontar pagamentos dos funcionários, os impostos e as obrigações financeiras, e apenas então a empresa gera o chamado lucro para o acionista. E a Vale se mostra excepcional nesse ponto também.

O fluxo de caixa operacional é um dos índices que nos mostra quão boa operacionalmente uma empresa é. E esse índice para a Vale se mostra em níveis superiores aos de 2019.

A Vale reportou, em seu último relatório aos investidores, um resultado operacional melhor que o do 3T19, com níveis de endividamento menores. Ou seja, a mineradora tem condições de honrar seus encargos financeiros e ainda sobra dinheiro para pagar dividendos.

3. A questão Brumadinho

Em relação ao episódio do rompimento da barragem de Brumadinho (MG), pode-se ver nas demonstrações da Vale que o fato tem um peso importante para a empresa, uma linha à parte que foi adicionada aos seus balanços. Dessa forma, ela mostra transparência em como está lidando com a situação e realizando as provisões para arcar com as compensações financeiras.

O fato é que a política de dividendos da Vale permanece forte, e em setembro de 2020 conseguiu pagar dividendos pela primeira vez depois do desastre de Brumadinho. Ou seja, a empresa já consegue cumprir com as suas obrigações sociais decorrentes da quebra da barragem e ainda consegue remunerar seus acionistas.

Imagino que você deva estar se perguntando: “Bom, mas ela não está apenas cumprindo com sua obrigação?”. Sim, eu também acho que ela está fazendo o que deveria. O que chama atenção é que a companhia está realizando isso de uma forma muito inteligente por conta de um fator: o timing.

Em suas notas explicativas relacionadas ao 3T20, a Vale indica que já está em negociação dos acordos adicionais de indenização pelos danos causados a Brumadinho. Eles estão sendo feitos em um momento em que a empresa está em ascensão, o que se torna favorável para seus resultados e pagamentos de dividendos futuros, uma vez que o impacto nesses números será menor.

Performance

Um fato muito importante é o que está acontecendo com a ação da Vale no mercado atualmente. Lembremos que o Renda Total também vislumbra aumentar o seu patrimônio, certo?

Fonte: Comdinheiro

Para que você entenda: no gráfico acima, temos o retorno acumulado do Ibovespa (vermelho) e da Vale (azul) de janeiro a outubro de 2020. Podemos notar que a Vale teve uma queda muito similar ao Ibovespa, mas uma retomada mais acentuada. 

Pode-se notar também que a Vale teve uma queda devido à crise pandêmica, principalmente por conta da diminuição das exportações e baixa atividade industrial global. No entanto, aos primeiros indícios de retomada, vemos que ela se descola do Ibovespa, rendendo níveis superiores quando comparada ao mercado.

Para se ter uma ideia, desde o início deste ano, o Ibovespa acumula uma queda de 16%, enquanto a ação da Vale sobe 16%, ou seja, uma diferença de 32 pontos percentuais no ano.

Esses três fatores, sem dúvida, agradaram não apenas a equipe de análise da Spiti, como também o mercado, que acredita no potencial da empresa para o médio e longo prazos.

Sendo assim, o target (objetivo) para o preço da ação, calculado pela nossa analista de Bolsa Aline Tavares, é de R$ 75, ou seja, uma valorização de mais de 20% em relação ao valor atual.

Além disso, outros grandes players, como o Credit Suisse e a XP, vislumbram um target para sua ação acima R$ 80, o que geraria, então, um ganho superior a 33%.

Dividendos

Os dividendos voltaram a ser pagos em 2020 – pela primeira vez após o desastre de Brumadinho. Isso porque a Vale provavelmente enxerga que as provisões realizadas até o momento são suficientes para arcar com todas as indenizações impostas à empresa.

Foram pagos aos seus acionistas US$ 2,3 bilhões em distribuição de proventos, número que surpreendeu o mercado, que esperava valor US$ 1 bilhão menor, como forma de cumprir apenas o mínimo do acordo com sua política de dividendos.

Além dos pontos já mencionados, que nos dão confiança em acreditar na melhora dos fundamentos da empresa, gostaria de ressaltar mais dois fatores que me animam em recomendar as ações da Vale para a nossa carteira:

1. Desvalorização cambial

Quanto mais desvalorizado o real fica frente ao dólar, maiores tendem a ser nossas exportações, inclusive as de minério de ferro.

E por que isso acontece?

Imagine que a Vale venda uma tonelada de minério de ferro a R$ 500 quando a cotação do dólar é de R$ 2,50. Isso significa que, para um comprador estrangeiro, essa quantidade custa US$ 200, certo?

Porém, quando o dólar se valoriza frente ao real, ou seja, a nossa moeda se deprecia, o preço do minério de ferro fica mais barato para os compradores estrangeiros.

Assim, se o mesmo comprador do exemplo anterior comprar uma tonelada de minério de ferro, mas com o dólar a R$ 5, a mesma quantidade do minério vai custar US$ 100.

Em 2020, o dólar já subiu mais de 40%, saindo de R$ 4 a níveis próximos de R$ 6, como você pode observar no gráfico abaixo:

Fonte: Bloomberg

E isso não tende a se recuperar tão cedo, em nossa opinião, já que os fundamentos para o Brasil são mais frágeis e não devem se fortalecer no curto prazo, principalmente em relação ao problema fiscal, causado pelo aumento da dívida.

Ainda temos um potencial impacto na demanda decorrente da recente desvalorização cambial. Isso porque o ano atípico que estamos vivendo fez com que a economia global se desaquecesse fortemente, e a procura por minério ficasse represada.

Nos próximos meses, quando a expectativa for de maior controle da pandemia, a demanda global por minério de ferro deve voltar ao normal. É esperado então que a Vale esteja mais bem posicionada do que seus concorrentes globais em termos de preço do que estava no início do ano.

2. Melhoria da imagem institucional

A Vale implementou há alguns meses planos de melhorias relacionados ao meio ambiente e ao risco do seu negócio para com as pessoas e a natureza de uma forma muito transparente. Desde os incidentes, três fatores confirmam isso.

O primeiro: a empresa deixou de distribuir dividendos para criar caixa e cumprir com as decisões judiciais. O segundo ponto: colocou no seu demonstrativo de resultados o valor que será destinado para as famílias e o governo brasileiro, ou seja, já contabilizou financeiramente os desastres que acontecerem e estão apenas aguardando a finalização do acordo global de indenização com o Estado de Minas Gerais. E, terceiro, a Vale estruturou um plano estratégico para recuperação do rio Paraopeba e para diminuir a dependência de Brumadinho do setor de mineração.

E, mais um ponto, a mineradora não esconde esses fatos; inclusive, todas essas iniciativas podem ser encontradas no menu principal do site oficial da Vale.

Esses fatores em conjunto podem ajudar a melhorar a sua imagem frente ao mercado e causar impacto positivo em relação a mais investidores e fundos de investimento.

Conclusão

A Vale tem um potencial enorme para pagamento de dividendos nos próximos meses para quem investir em suas ações. Além disso, com fundamentos cada vez mais sólidos e fortes, apresenta um potencial de valorização relevante no médio e longo prazos.

Mas é importante ressaltar um ponto. Apesar de o número de casos de infecção pelo novo coronavírus e dos óbitos decorrentes da doença estarem em queda no Brasil, uma segunda onda, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, tem colocado o mercado em estado de atenção nos últimos dias.

Além de serem duas das três maiores parceiras comerciais do Brasil, as duas regiões são determinantes nos rumos da economia global. Assim, com os novos lockdowns impostos em países europeus, a atividade econômica pode desacelerar mais uma vez e, consequentemente, também a demanda por minério de ferro no curto prazo.

Esse fato não fez com que o preço do minério de ferro caísse das suas máximas dos últimos dois anos, ou seja, essa possível queda de demanda ainda não impactou o preço da commodity.

Ainda que o foco seja no médio e longo prazos, não podemos deixar de dar atenção para o curto prazo. Por isso, vamos colocar apenas 2,5% de nossa carteira Renda Total no papel da Vale (VALE3).

De acordo com o andamento da segunda onda na Europa, podemos ajustar nossa exposição às ações da Vale. Até lá, vamos manter um posicionamento seguro, sem muitos riscos.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.