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Visão geral do mercado cripto

Escrito por Thales Inada, Rodrigo Xavier em ALTERNATIVOS

14 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • Atualização do cenário macro. As probabilidades de corte de juros nos Estados Unidos melhoraram um pouco no último mês, diminuindo significativamente o risco de um aumento na taxa de juros. Voltamos a ter boas chances de um corte de 0,5% até o final do ano que vem. O conflito do Oriente Médio aparenta estar próximo do fim, o que favorece o cenário.

  • Narrativas do mercado cripto que fracassaram. Forks do BTC, anonimato, NFTs, Metaverso, Memecoins, Airdrops, usabilidades da rede do Bitcoin e, por enquanto, podemos dizer que até meios de pagamento ainda não se concretizaram de forma eficiente.

  • Narrativas que sobrevivem. São poucas as aplicações que persistem de forma consistente ciclo após ciclo. Atualmente, os maiores cases de sucesso estão relacionados ao mercado de Real World Assets (RWA) e, consequentemente, Finanças Descentralizadas (DeFi).

Desde quando comecei no mercado cripto, em 2017, o padrão de hype de narrativas se repete ciclo após ciclo.

Seja nas fortes altas de 1.000% nas novas aplicações criadas ou nas quedas de 95% durante a temporada de baixa do BTC. Sempre foi assim e continuamos seguindo o padrão até o momento.

Por isso, digo tranquilamente: dos 50 milhões de criptoativos existentes, 99,999% vão falhar. Se 50 projetos sobreviverem com dignidade mínima até 2030, é muito.

No relatório de hoje, vamos revisitar essas narrativas do passado que falharam, como NFTs, Metaverso, Airdrops, entre outras, e analisar quais aplicações sobrevivem ciclo após ciclo.

Cenário macro

A guerra no Oriente Médio, que segundo Trump era para durar somente até o mês de março, permanece até hoje. O estreito de Ormuz segue predominantemente fechado e, com isso, o barril de petróleo se mantém acima dos US$ 100.

A expectativa do mercado é que, mesmo que a guerra acabe nos próximos dias, o barril pode demorar cerca de seis meses para voltar aos patamares anteriores, dos US$ 60.

Com a commodity em preços elevados, a produção industrial fica mais cara e os preços tendem a subir nas prateleiras. Isso pressiona a inflação, e no final das contas adia cortes de juros ao redor do mundo.

No relatório do mês passado, tínhamos até mesmo uma expectativa significativa de um aumento na taxa de juros dos Estados Unidos. Agora, essa probabilidade ainda existe, mas bem menor.

Expectativa dos cortes de juros nos EUA

Fonte: CME (23/04/2026)

Por outro lado, hoje também temos a possibilidade de um corte de 0,5% em setembro do ano que vem, sendo que, no mês passado, a expectativa era que isso aconteceria somente em dezembro. Mas, claro, essas probabilidades estão variando bastante ultimamente devido ao conflito e o que importa, no final das contas, é que para as próximas reuniões já está praticamente dado que a taxa será mantida.

Kevin Warsh, o novo presidente do Fed, já está confirmado e deve participar da próxima reunião do FOMC esta semana, dia 29. Ele fez questão de destacar que não tomará decisão baseada na pressão de Trump e que atuará de forma totalmente independente.

Número de ativos

O mercado cripto evoluiu muito nessa última temporada de alta que iniciou em 2023. De 2024 para cá, saímos da casa dos 2 milhões de criptoativos para quase 50 milhões atualmente.

Fonte: CoinMarketCap

Essa explosão de número de ativos aconteceu por causa da facilidade de criação de novos ativos na rede da Solana, com o projeto chamado Pump.fun, que como o próprio nome sugere, traz ativos puramente especulativos, com temas do momento, que basicamente são memecoins, sem fundamentos e que duram apenas poucos dias.

Fonte: CoinMarketCap

No auge da aplicação, os ativos da Solana chegaram a representar quase de 80% do total de criptoativos. Mais recentemente, quem ganhou market share em número de moedas foi a rede da Base, projeto que se originou como segunda camada da Ethereum.

Com esse grande número de ativos, é claro que existe uma infinidade de aplicações e narrativas que já passaram por este mercado. Por isso, hoje, vamos analisar as principais ideias de sucesso e fracasso que já passaram pelo mercado cripto.

Narrativas que fracassaram

É fato que o mercado cripto vive de narrativas. Pouquíssimos ativos permanecem no topo do ranking até o próximo ciclo.

Na tabela abaixo, fiz o comparativo dos  20 maiores ativos em capitalização durante o topo do ciclo de 2017, de 2021 e de 2025. Tirando BTC e ETH, somente XRP, LTC, e ADA permaneceram até 2021. Apenas SOL XRP e AVAX permaneceram de 2021 até 2025. E de 2017, voltaram para o ranking de 2025 ADA, BCH e XLM.

Cada ciclo teve narrativas que entraram no hype do mercado e não necessariamente repetiram o feito no próximo ciclo. Vamos seguir uma ordem cronológica das narrativas para conseguirmos discutir a evolução deste mercado.

2017

Quando comecei em cripto, ainda tínhamos pouquíssimas possibilidades. Um mercado extremamente informal e de altíssimo risco. As estratégias eram as mais básicas possíveis.

ICO (Initial Coin Offering)

A moda para captação de recursos na época era a Oferta Inicial de Criptoativos ICO). Como o próprio nome já diz, era a venda de criptoativos diretamente para o investidor final. Semelhante ao processo de abertura de capital na bolsa (IPO). Essa estratégia se tornou viável com a Ethereum, que surgiu em 2015.

Qualquer pessoa que conseguisse montar um site minimamente bonito, com uma ideia que fazia sentido, e com o mínimo de conhecimento de programação, conseguia criar um criptoativo na Ethereum e vender seus tokens para o mundo inteiro, mesmo com o projeto ainda no papel.

Com a facilidade, começaram os golpes. Na página de vendas, times de fundadores falsos e sites que saiam do ar semanas depois de lançarem a ideia. Era um mercado sem regras.

A IOTA, Neo e EOS são alguns exemplos de ativos dessa época. Até que veio a temporada de baixa do mercado cripto em 2018 e o BTC caiu 86% enquanto as altcoins, no geral, praticamente morreram.

Por questões regulatórias e risco desses ativos serem classificados como ofertas de valores mobiliários pela SEC, a estratégia deixou de ser utilizada nos anos seguintes.

Forks do BTC

O fork é uma estratégia de criação de um novo ativo, baseado no ativo de origem, com apenas algumas alterações no código.

A LTC foi o primeiro fork do BTC em 2013. Em 2017 foi o auge do movimento, com a chegada do Bitcoin Cash (BCH), assim como o BTC Gold (BTG), Bitcoin Diamond (BCD) e Bitcoin SV (BSV), todos surgiram a partir do blockchain do BTC. Quem tinha BTC na época, recebia automaticamente esses novos ativos.

Na época, um simples envio de BTC chegou a passar dos US$ 50, o que inviabilizou transações pequenas. Nesse momento, o mercado começou a sentir essa dificuldade, e esses outros ativos visavam melhorar as taxas para tornar o BTC viável novamente.

Só que nenhum deles era tão descentralizado quanto o Bitcoin. Assim, eles não tiveram muita adoção dos investidores e consequentemente se tornaram irrelevantes com o tempo.

A estratégia deixou de ser utilizada para facilitar a criação de novos ativos, mas ainda pode ser uma opção para atualizações da rede, depois do consenso dos usuários, pois assim todos migraram para esse novo ativo e mantemos a descentralização.

Meios de pagamento

Esse foi o principal motivador da origem do BTC. Porém, conforme comentamos no item acima, com o passar do tempo, ele não se demonstrou muito eficiente para suportar um grande número de transações.

Aumentar seu potencial de escalabilidade e tornar as transações mais baratas foi uma das principais narrativas da época e a motivação principal para criarem o Bitcoin Cash (BCH), Ripple (XRP) e Stellar Lumens (XLM).

Mas aqui, entramos em um famoso dilema, a tríade do mercado cripto: Descentralização x Escalabilidade x Segurança.

Acontece que para ser escalável, o projeto precisa ser relativamente centralizado. Sendo mais centralizado, também fica menos seguro. O mercado cripto ainda não encontrou a solução ideal que consegue conciliar essas três características da forma mais eficiente.

No final das contas, o mercado demonstra que prefere pagar caro por segurança e mais descentralização a economizar com a escalabilidade. Podemos ver essa preferência pela adoção predominante tanto do Bitcoin quanto da Ethereum.

Anonimato

O anonimato é um assunto polêmico. Apesar de muitos acreditarem até hoje que o BTC é anônimo, na verdade ele não é. Para atender essa necessidade, surgiram alguns ativos com este objetivo específico, como a Dash (DASH), ZCash (ZEC) e Monero (XMR).

Por algum tempo, foram ignorados, mas nos últimos anos, enfrentam continuamente forte pressão regulatória, pois de fato podem ser utilizados para fins ilícitos. Então, nunca performaram tão bem devido ao alto risco.

Apesar da complexidade do setor, a ZEC ganhou bastante relevância no final do ano passado. Acredito que esse seria o caminho ideal que devemos almejar no futuro para meios de pagamento, porém ainda estamos muito longe disso.

2021

O mercado já era bem mais maduro. Projetos que só existiam no papel e que não tinham um Mínimo Produto Viável (MVP) já operando não conseguiam mais captar sem um time de credibilidade por trás. Muitos projetos deixaram para lançar seus ativos somente quando já tinham alguma usabilidade.

Essa estratégia trazia muito mais credibilidade, pois demonstrava que eles não dependiam desse capital inicial para iniciarem o projeto, ao mesmo tempo que o investidor tinha muito mais segurança no seu investimento, pois não era um projeto apenas no papel como em 2017.

Neste momento, o mercado cripto deixou de ser meramente especulação e começou a entregar produtos reais, ainda que relativamente simples e de operações mais básicas possível. Foi aqui que começaram a surgir inúmeras aplicações para o Blockchain e para os contratos inteligentes.

IEO (Initial Exchange Offering)

Uma das estratégias de lançamento de tokens nas exchanges. Com ela, fugia-se de um dos critérios da SEC, pois a simples “listagem” de ativo na exchange não é uma oferta ao público e, sim, apenas o início das negociações dele. Compra no preço de lançamento quem quer, e a exchange garante essa liquidez.

Além disso, a ideia é que a exchange faria uma curadoria detalhada dos projetos que ela coloca em negociação na sua plataforma e, por isso, seriam projetos que já passaram por uma análise.

Entretanto, isso não se comprovou com o tempo, pois muitas vezes o critério principal era simplesmente pagar para ser listado na exchange, enquanto projetos relativamente grandes não conseguiam ser listados, pois não topavam arcar com esse custo.

Um case de sucesso da estratégia foi a Polygon (POL), segunda camada da Ethereum bem significativa até hoje.

Até que chegou o projeto Internet Computer (ICP), que fez uma parceria de lançamento do seu ativo nas cinco maiores exchanges do mundo no mesmo dia. O preço de lançamento foi combinado para posicionar o ativo entre as 10 maiores criptomoedas da época e chamar a atenção instantaneamente do mercado.

No primeiro mês de negociação, o ativo caiu 80%, estando atualmente 99% abaixo da sua máxima. A partir daí, os IEO passaram a ser vistos com maus olhos, pois esses lançamentos de ativos têm seu preço “sugerido” pelas exchanges e não fazem sentido algum.

NFT

Os NFTs surgiram mesmo em 2017, com os CryptoPunks e os CryptoKitties, porém só em 2021 se popularizaram, depois da venda de alguns desses NFTs por dezenas de milhões de dólares.

Até que chegamos ao fenômeno cultural da coleção dos Bored Apes, que prometia acesso a uma comunidade virtual, encontros físicos, acesso a eventos de cripto, entre outros benefícios para seus detentores.

Justin Bieber, Neymar Jr, Eminem, Stephen Curry, Paris Hilton, entre outras dezenas de celebridades, pagaram milhões nas imagens de macacos. O Fly Fish, restaurante de Nova Iorque, só dava acesso para quem tinha um NFT da sua coleção. Músicas em formato de NFT foram vendidas. Nike e Adidas lançaram coleções misturando o físico com o digital.

E neste mercado foi criado um submercado, o de jogos baseados em NFTs. Cada personagem, cada acessório, roupa, era um ativo digital, que você poderia comprar e depois revender, quem sabe até mais caro.

O jogo Axie Infinity foi o maior sucesso da aplicação, se tornando extremamente popular em países pobres como as Filipinas. Os melhores jogadores chegavam a tirar mais de R$ 5 mil por mês. Até que o projeto sofreu o maior hack da história do mercado cripto na época e perdeu US$ 625 milhões.

Pessoalmente, acredito que no futuro encontraremos alguma usabilidade para esse modelo, mas o mercado nem voltou a chamar atenção nesse ciclo, como podemos ver no volume de negociação de NFTs no gráfico abaixo.

Volume de negociação de NFTs desde 2022 na Ethereum

Fonte: DappRadar

Metaverso

Esse foi de longe o setor que mais me deu dinheiro. Eu comprava e vendia terrenos virtuais em um projeto chamado Sandbox (SAND), que inclusive era uma das minhas recomendações na época.

Até que em outubro de 2021 veio Mark Zuckerberg anunciando a mudança de nome do Facebook para Meta, e que investiria US$ 10 bilhões na realidade virtual. Em questão de cinco semanas, o SAND valorizou 10x.

Mas desde então, só desceu ladeira abaixo. Qualquer projeto relacionado ao metaverso, hoje, caiu 99%. A escassez dos terrenos e dos itens exclusivos era relativa, pois cada projeto criado disponibiliza mais NFTs.

Até mesmo os óculos de realidade virtual ainda enfrentam grande dificuldade de aceitação devido ao desconforto no seu uso, e as aplicações mais eficientes acabam tendo um uso mais profissional do que para o consumidor final.

DeFi (Finanças Descentralizadas)

O DeFi também começou de forma discreta em 2017 com a MakerDao, mas começou a ganhar credibilidade por volta de 2020, com o crescimento da Uniswap, Compound e AAVE. O mercado tracionou de verdade em 2021, quando seu Valor Total Depositado (TVL) multiplicou por 10.

Fonte: DefiLlama

Esse foi o início da popularidade das aplicações de Finanças Descentralizadas, como staking, swaps e empréstimos. Isso porque, para esses projetos operarem de forma segura, eles precisam de uma base sólida de capital investido, para um grande investidor não ter poder significativo na operação.

Esse mercado funciona 24h por dia, sem aprovação de crédito, sem burocracias no banco, sem fronteiras. Sua eficiência não tem comparação com o mercado tradicional.

Perceba como o ciclo de 2021 foi bem diferente do anterior, pois aqui os projetos de fato conseguiam operar em escala significativa enquanto em 2017 eles mal existiam. Os NFTs realmente tinham comunidades extremamente engajadas. O GameFi funcionou durante anos. E até mesmo o Facebook mudou seu nome para um inspirado no Metaverso.

No final das contas, naquele ciclo, o mercado todo viveu um hype generalizado, não importava sua aplicação, todos valorizaram muito. Porém o DeFi é a única aplicação daquela época que de fato sobreviveu até os dias de hoje.

2025

A tão esperada altseason não aconteceu como nos ciclos anteriores. Na minha opinião, porque conforme vimos, o número de ativos cresceu descontroladamente e, com isso, o dinheiro investido no mercado cripto foi diluído ao extremo.

Obteve retornos significativos somente quem montou posição em determinadas narrativas e, mais do que isso, nos períodos certos. Algumas narrativas tiveram seus momentos de euforia. Muito diferente do que vimos nos ciclos anteriores, pois não presenciamos uma valorização generalizada.

Muito dinheiro também fluiu somente para o BTC com a chegada dos ETFs à vista em janeiro de 2024. A adoção do mercado financeiro tradicional favoreceu bastante o BTC e não permitiu sua dominância ir muito abaixo dos 60%, sendo que nos ciclos anteriores atingiu o patamar dos 40%.

Memecoins

A estratégia se popularizou principalmente na rede da Solana, por razões tecnicamente favoráveis, como custo operacional mínimo e velocidade de transações.

Com a chegada do projeto Pump.fun, foi possível criar ativos temáticos, aproveitando a narrativa do momento, por menos de US$ 5,00 em questão de minutos. Mas claro, projetos totalmente sem fundamentos, apenas um nome e um logotipo do ativo. É descaradamente um Pump-and-Dump de cripto.

O ápice do absurdo foi a criação da moeda TRUMP, lançada dias antes da posse do atual presidente dos EUA, em janeiro de 2025. Por ser uma moeda oficial lançada pela família Trump, o ativo atingiu US$ 10 bilhões de capitalização rapidamente e se tornou um dos maiores criptoativos do mundo.

Com o sucesso, como se não bastasse, dois dias depois, lançaram a moeda da sua esposa, Melania. Esses ativos drenaram toda a liquidez das memecoins e, a partir daí, o setor colapsou.

A aplicação certamente deixou 99% dos investidores no prejuízo e frustrou grande parte do mercado.

Airdrops

Essa foi a principal estratégia utilizada para o lançamento de novos projetos neste ciclo.

Para atrair usuários na fase inicial, muitos projetos anunciavam uma distribuição de ativos gratuitamente. Assim, os projetos conseguiam fazer um teste de estresse nas suas plataformas e solucionar problemas de forma eficiente.

Até que a estratégia viralizou e surgiram os “Airdrop Hunters”, pessoas que ficavam o dia inteiro operando nesses projetos só para receberem recompensas melhores e até deixavam robôs operando 24h por dia, em centenas de carteiras.

No final das contas, isso também frustrou os investidores. Pois usuários legítimos não chegavam nem perto da participação absurda dos bots, que captavam grande parte da distribuição.

Certamente as narrativas das memecoins e airdrops popularizaram a rede da Solana, que ganhou um grande volume de transações em 2025 conforme a faixa vermelha no gráfico abaixo.

Fonte: DeFiLlama

Entretanto, desde o ápice do lançamento da moeda de Trump no início de 2025, as negociações da rede da Solana estão praticamente voltando ao que eram no início de 2024. Enquanto isso, a rede da Ethereum, que foi minimamente influenciada por essas narrativas, se mostrou consistente durante todo o período desde 2021.

Debate filosófico sobre o BTC

Em janeiro de 2023, um protocolo chamado Ordinals facilitou o processo de registro de informações, sejam pequenas imagens ou textos (inscriptions), na rede do BTC.

Como se não bastasse, logo em seguida, em março de 2023, com base na ideia anterior, o desenvolvedor criou um modelo básico de token, o BRC-20, e a popularização da aplicação levou as taxas da rede para acima dos US$ 50. Em abril de 2024 o protocolo Runes evoluiu o modelo e suavizou o impacto na rede.

De qualquer forma essas aplicações praticamente morreram hoje, e possuem um volume de negociação insignificante. Deixando assim mais uma vez a lição de que o BTC tem um propósito bem específico e não se interessa em múltiplas funcionalidades.

Apenas uma aplicação vem sobrevivendo: a segunda camada do BTC, a Lightning Network, focada em meios de pagamento. Apesar da leve queda no número de colaboradores da rede, ainda se manteve significativa nos últimos anos.

Com a consolidação do BTC no futuro, primeiro como reserva de valor, essa pode ser uma possibilidade de viabilizar a sua utilização como forma de pagamento no dia a dia, de maneira eficiente, assim como já é feito em El Salvador.

Segundas camadas (Layer 2 - L2)

Vitalik Buterin foi claro sobre o ciclo atual: seu foco seria a escalabilidade da Ethereum. Para isso ele precisava favorecer as operações das segundas camadas. Assim, foi necessário adotar uma estratégia até que radical: reservar parte do bloco de transações especificamente para esses projetos.

Aqui também tivemos uma certa influência da estratégia de Airdrops, mas por coincidência ou não, dentre dezenas de propostas, a Base, maior sucesso de segunda camada, não adotou a estratégia.

Fonte: TheBlock

A Base tem por trás a CoinBase, maior exchange dos Estados Unidos e por isso passa bastante credibilidade ao mercado além de ser uma das layer 2 mais baratas e eficientes. Em seguida, temos a Optimism e a Arbitrum como projetos relevantes.

Já é fato que a Ethereum precisa desse suporte das segundas camadas, e devido a esta necessidade, acredito que a aplicação deve durar por mais alguns anos, resta saber quem será o grande vencedor. Mas claro, também depende da rede da Ethereum permanecer relevante no futuro.

Ativos do mundo real (Real World Assets - RWAs)

Essa é a aplicação do mercado cripto que, no meu ponto de vista, cresce de forma mais consistente. Inclusive atraindo a atenção de grandes investidores do mercado financeiro tradicional, como BlackRock e JPMorgan.

O modelo digitaliza ativos reais, possibilitando a aplicação de contratos inteligentes, o que otimiza operações, diminui custos e torna o sistema financeiro muito mais eficiente.

Atualmente, as maiores aplicações são em títulos do Tesouro e commodities, mas já temos diversas outras, indicadas no gráfico abaixo.

Valor de mercado por aplicação

Fonte: RWA.xyz

O crescimento do setor segue consistente, com novas aplicações surgindo a todo momento.

Podemos acrescentar aqui as stablecoins, que nada mais são do que moedas fiduciárias que lastreiam um ativo digital. Aqui, sim, o mercado já está bem consolidado, com cerca de US$ 300 bilhões, o que representa 90% de todo o setor de RWA.

Capitalização das Stablecoins

Fonte: RWA.xyz

A Lei Genius Act, sancionada em julho de 2025, estabeleceu o primeiro marco regulatório das stablecoins. O objetivo é realmente integrar os criptoativos ao sistema bancário tradicional.

Já está comprovada a grande vantagem da digitalização de ativos reais e certamente essa é a aplicação de maior sucesso atualmente. 

Conclusão

Fazendo uma breve revisão, sendo bem rigorosos, somente ETH, XRP, ZEC e XMR sobreviveram dignamente desde o ciclo de 2017 e já estão se provando no tempo. 

Ativos do ciclo de 2021 como UNI, LINK, SOL e AAVE surgiram em um momento de mais maturidade do mercado e, por isso, já nasceram relativamente grandes.

Muitos projetos já tentaram superar a UNI e a LINK, assim como a concorrência da L1 da Solana é altíssima. Só de terem sobrevivido, certamente já são grandes cases de sucesso.

Quem sabe, a partir do próximo ciclo de alta, já teremos uma boa referência se alguns desses ativos estarão consolidados e já poderemos considerá-los como as “blue chips” do mercado cripto.

O fato é que o mercado cripto vive de narrativas. Muitas ideias já foram testadas e deixadas de lado, mas certamente diversas outras vão surgir e podem revolucionar as aplicações que conhecemos hoje.

Mas como já sabemos do mercado tradicional, quem chega primeiro, bebe água fresca, e tirar a hegemonia da Ethereum, Uniswap e Chainlink será um desafio enorme.

 

Sobre os analistas

Thales Inada

Especialista em Criptoativos

Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance (a maior do mundo), Mercado Bitcoin (a maior da América Latina) e XDEX, a antiga exchange da XP Inc. Agora, deixou as instituições para ficar do lado de investidoras e investidores, com missão de democratizar o universo dos criptoativos e investimentos alternativos por meio de uma linguagem simples e direta, a fim de tornar esse mercado visionário acessível a todas as pessoas.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.